O controle por mensagens, localização e redes sociais pode fazer parte de situações de abuso digital em relacionamentos. Foto: Magnific.

Jovens têm dificuldade para reconhecer abuso digital em relacionamentos, diz estudo

Jovens de 16 a 24 anos podem ter dificuldade para reconhecer situações de abuso digital dentro de relacionamentos. Cobranças por senhas, monitoramento da localização e exigências para responder imediatamente às mensagens, por exemplo, podem parecer demonstrações de carinho ou preocupação. Entretanto, essas atitudes também podem representar formas de controle.

O controle por mensagens, localização e redes sociais pode fazer parte de situações de abuso digital em relacionamentos. Foto: Magnific.

O controle por mensagens, localização e redes sociais pode fazer parte de situações de abuso digital em relacionamentos. Foto: Magnific.

Esse é um dos principais pontos levantados por uma análise publicada em 2026 no Journal of Online Trust and Safety, ligado à Universidade Stanford, nos Estados Unidos. O trabalho reuniu entrevistas com dez especialistas de organizações que atuam na prevenção da violência e no atendimento a vítimas em dez países, incluindo o Brasil.

Segundo os profissionais ouvidos na análise, a tecnologia passou a fazer parte de dinâmicas de controle que já existiam nos relacionamentos. Dessa forma, aplicativos, redes sociais e ferramentas de localização podem ampliar a capacidade de uma pessoa monitorar o parceiro.

O que é abuso digital em relacionamentos?

O abuso digital envolve comportamentos realizados por meio de tecnologias para controlar, monitorar, intimidar ou prejudicar um parceiro ou ex parceiro.

Entre os exemplos estão a cobrança constante por respostas, a exigência de acesso a senhas, o monitoramento da localização e a fiscalização das interações nas redes sociais.

Além disso, o controle pode continuar mesmo depois do fim de um relacionamento. Segundo especialistas ouvidos pela análise, uma pessoa pode bloquear determinado contato ou encerrar a relação e, ainda assim, continuar sofrendo monitoramento ou intimidação por meio de outros perfis, contas ou pessoas intermediárias.

Por que o comportamento pode parecer carinho?

Um dos principais problemas está justamente na maneira como determinadas atitudes aparecem dentro de um relacionamento.

Perguntar constantemente onde o parceiro está, exigir respostas imediatas ou pedir senhas pode parecer uma demonstração de confiança, cuidado ou amor. Entretanto, quando uma pessoa utiliza essas práticas para limitar a autonomia do parceiro, o comportamento pode fazer parte de uma dinâmica de controle.

Esse tipo de comportamento também não surgiu com as redes sociais. Pesquisas anteriores já identificaram que adolescentes e jovens podem naturalizar determinadas formas de abuso digital, especialmente quando associam o monitoramento a ideias de proteção e prova de amor.

Por isso, o contexto merece atenção. Uma atitude isolada pode ter diferentes significados. Por outro lado, um padrão constante de vigilância e restrição pode indicar uma dinâmica abusiva.

Controle pode acontecer durante todo o dia

A presença constante dos celulares também mudou a maneira como as pessoas vivem seus relacionamentos.

Antes, uma pessoa conseguia controlar o parceiro principalmente quando permanecia fisicamente próxima. Agora, entretanto, mensagens instantâneas, localização em tempo real e redes sociais permitem que determinadas formas de vigilância aconteçam praticamente durante todo o dia.

Além disso, a tecnologia permite verificar quando alguém esteve online, acompanhar suas interações e questionar cada demora para responder.

Consequentemente, o limite entre comunicação e vigilância pode ficar menos evidente, principalmente para pessoas que cresceram utilizando essas ferramentas diariamente.

Abuso digital também pode afetar a privacidade

Outro ponto importante envolve a exposição de informações pessoais.

Compartilhar uma senha ou permitir acesso à localização pode acontecer de maneira consensual em um relacionamento. No entanto, exigir essas informações ou utilizar os dados contra a vontade da outra pessoa muda completamente a situação.

Estudos anteriores sobre abuso digital entre adolescentes já apontaram que a exposição da intimidade e o monitoramento sem autorização podem ultrapassar os limites estabelecidos dentro de um relacionamento.

Além disso, uma revisão internacional sobre violência digital em relacionamentos entre adolescentes identificou o controle e o monitoramento como práticas recorrentes nesse tipo de abuso.

Tecnologia pode ampliar formas de violência

A tecnologia, por si só, não determina que um relacionamento será abusivo. Contudo, ela pode oferecer novas ferramentas para comportamentos de controle que já existem.

Por exemplo, uma pessoa que deseja monitorar constantemente o parceiro pode utilizar aplicativos, redes sociais e recursos de localização para ampliar esse comportamento.

Da mesma forma, mensagens e notificações podem criar uma expectativa de disponibilidade permanente. Assim, a demora em responder pode gerar cobranças, discussões ou acusações.

Uma pesquisa publicada em 2026 com 336 universitários de 18 a 25 anos também encontrou associações entre violência digital nos relacionamentos, controle e determinadas crenças sobre o amor romântico. Os autores defenderam ações de prevenção que ajudem jovens a reconhecer o controle digital como uma forma de violência.

Reconhecer os sinais pode ajudar na prevenção

Diante desse cenário, especialistas destacam a importância de discutir limites, privacidade e autonomia nos relacionamentos.

A questão não envolve apenas uma ferramenta específica. Afinal, praticamente qualquer recurso digital pode assumir diferentes funções dependendo da situação e do consentimento das pessoas envolvidas.

Por isso, comportamentos repetidos de vigilância, cobrança, intimidação ou restrição da autonomia merecem atenção.

Além disso, conversar sobre esses sinais pode facilitar a identificação de situações abusivas antes que elas se agravem.

A pesquisa também reforça a necessidade de ampliar o debate sobre violência digital entre jovens. Dessa maneira, escolas, famílias, profissionais de saúde e organizações especializadas podem ajudar os jovens a reconhecer comportamentos de controle e diferenciá-los de demonstrações de cuidado ou afeto.

Fonte: Revista Galileu

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