
Filhos de pais que se divorciaram durante a infância apresentaram 41% mais chance de relatar um diagnóstico de depressão ao longo da vida, segundo um estudo realizado com mais de 128 mil adultos nos Estados Unidos. A pesquisa foi publicada na revista científica Psychiatry Research.
Entretanto, o resultado exige uma interpretação cuidadosa. Embora a análise inicial tenha encontrado uma associação entre o divórcio dos pais e a depressão na vida adulta, essa relação deixou de ser estatisticamente significativa quando os pesquisadores consideraram outros fatores presentes no ambiente familiar.
Dessa forma, os dados não permitem afirmar que o divórcio, por si só, provoca depressão nos filhos. Na realidade, a pesquisa indica que características do ambiente familiar, incluindo transtornos mentais e problemas relacionados ao uso de substâncias pelos pais, também podem exercer influência importante.
Na primeira análise, os pesquisadores compararam adultos que vivenciaram o divórcio dos pais antes dos 18 anos com aqueles cujos pais permaneceram casados.
Entre as pessoas que passaram pela separação dos pais durante a infância, 19,2% relataram depressão ao longo da vida. Por outro lado, o índice ficou em 14,1% entre os participantes cujos pais continuaram casados.
Assim, a diferença representou uma chance 41% maior no primeiro grupo.
No entanto, os pesquisadores também analisaram outras características das famílias. Quando incluíram transtornos mentais e problemas relacionados ao consumo de álcool e outras drogas entre os pais, a associação entre o divórcio e a depressão deixou de apresentar significância estatística.
Os resultados sugerem que o contexto no qual a separação acontece merece atenção. Afinal, o divórcio pode ocorrer em famílias que já enfrentavam conflitos, instabilidade emocional ou outros problemas antes do término do casamento.
Segundo o psicólogo Arthur Vaciloto, do Espaço Einstein de Bem Estar e Saúde Mental, a depressão possui causas multifatoriais. Por isso, dificilmente um único acontecimento explica sozinho o desenvolvimento do transtorno.
Além disso, conflitos constantes entre os pais podem afetar a experiência das crianças. Em algumas situações, por exemplo, uma separação pode até reduzir a exposição dos filhos a discussões frequentes dentro de casa.
O estudo não indica que filhos de pais separados necessariamente desenvolverão depressão. Na verdade, os próprios resultados mostram que outros fatores podem ajudar a explicar a diferença encontrada na análise inicial.
Além disso, pesquisas anteriores também apontam associações entre divórcio parental e sintomas depressivos em determinadas fases da vida. Um estudo publicado em 2026, por exemplo, analisou mais de 3,6 mil estudantes universitários e investigou a relação entre divórcio dos pais, sintomas depressivos e ansiedade social.
Outro estudo, publicado em 2025, acompanhou 2.600 jovens adultos e observou aumento de sintomas depressivos quando o divórcio dos pais ocorreu aos 18 ou 19 anos. Entretanto, os pesquisadores não encontraram evidências de mudança nos sintomas quando a separação aconteceu depois dos 19 anos.
Portanto, idade, contexto familiar e maneira como os pais conduzem a separação podem influenciar a experiência dos filhos.
A forma como os adultos conduzem o processo também pode fazer diferença. Por isso, especialistas recomendam evitar discussões na frente dos filhos e não colocá-los no centro dos conflitos do casal.
Além disso, os pais devem deixar claro que a criança não tem responsabilidade pela separação. Ao mesmo tempo, é importante reforçar que ambos continuarão presentes e disponíveis emocionalmente, mesmo depois da mudança na configuração familiar.
Segundo Arthur Vaciloto, também vale observar alterações persistentes no comportamento. Mudanças no sono, dificuldades alimentares, perda de interesse por atividades habituais e alterações emocionais podem indicar que a criança está enfrentando dificuldades para lidar com a nova situação.
Nesse caso, buscar orientação profissional pode ajudar a identificar as necessidades da criança e oferecer suporte adequado.
O número de 41% representa uma associação encontrada na análise inicial do estudo. Portanto, ele não significa que 41% dos filhos de pais separados desenvolverão depressão.
Da mesma forma, o resultado não permite concluir que o divórcio seja uma causa direta do transtorno. Quando os pesquisadores levaram em conta outros fatores familiares, principalmente transtornos mentais e problemas relacionados ao uso de substâncias pelos pais, a associação deixou de ser estatisticamente significativa.
Assim, o estudo reforça a importância de analisar todo o contexto familiar ao investigar a saúde mental dos filhos, em vez de atribuir os efeitos observados exclusivamente à separação dos pais.
Fonte: Revista Galileu






