Palavras cruzadas: a profissional que rejuveneceu a tradição

Anna Shechtman é uma jornalista e criadora de palavras cruzadas americana de apenas 31 anos. De acordo com ela, uma de suas pistas preferidas para o desafio foi “Grande dama da música”. A resposta? Ariana.

Isso porque a pista reflete as mudanças que Anna Shechtman pretende fazer na cena de palavras cruzadas dos Estados Unidos. Com uma linguagem que atrai perfis mais variados de leitores, como é o caso do jogo de palavras, e utilizando a dica para “Ariana Grande”, uma cantora amada entre adolescentes e crianças, assim como adultos, Anna trouxe inovação para o jogo de palavras.

“Existe um grande prazer em solucionar uma palavra cruzada – naquele momento de reconhecimento quando você vê algo que sabe refletido no seu jornal”, diz ela. “Então, para mim, o projeto é trazer esse momento de reconhecimento para mais e mais pessoas que se parecem comigo e consomem o mesmo tipo de produtos culturais que eu.”

No momento, Anna trabalha na revista The New Yorker e possui doutorado em literatura inglesa e estudos de cinema e mídia. Assim, ela se descreve como uma consumidora apaixonada de reality shows na TV. Em entrevista à BBC, Anna contou a história de como se apaixonou pelo mundo das palavras cruzadas, que foi enquanto ela travava uma batalha contra seu distúrbio alimentar.

Divulgação/Anna Shechtman

Novos ares nas palavras cruzadas

Ao longo da história, é possível perceber como o ambiente de criação das palavras cruzadas sempre foi dominado por homens. Então, Anna se descreve como uma nova geração que está proporcionando mais diversidade de vozes nesse mundo.

“Toda palavra cruzada, de muitas formas, traz a digital do seu criador”, afirma. Anna Shechtman cresceu em Tribeca, no centro da ilha de Manhattan, em Nova York, com seu pai, um advogado, sua mãe, uma historiadora de arte, e sua irmã mais velha.

“Minha família é muito amorosa e também tem bastante do estereótipo da família judia nova-iorquina”, prossegue Anna. “Discussões e educação foram certamente priorizadas, e nossas opiniões e ideias sempre tiveram valor desde cedo.”

Dessa forma, Anna se apaixonou pelas palavras cruzadas quando acompanhou sua mãe ao cinema independente Angelika Film Centre, na região de Soho, para assistir ao documentário Palavras Cruzadas (2006).

“O filme realmente te apresenta a membros muito excêntricos do mundo das palavras cruzadas, e eu tive um momento muito estranho de identificação cinematográfica com eles”, afirma. No entanto, ela admite que não é todo mundo que consegue encontrar inspiração nas palavras cruzadas.

“Por alguma razão, eu senti o entusiasmo e a excentricidade deles através da tela. Havia algo estrutural sobre a linguagem – era quase como mágica.”

Os tipos de cruzadinhas

Logo, Anna passou a criar palavras cruzadas no estilo americano que, segundo ela, é peculiar.

“Absolutamente todas as letras precisam estar conectadas a duas palavras do quadro, o que cria um processo de construção bastante masoquista. É diferente, por exemplo, das palavras cruzadas de estilo britânico, na qual a dificuldade é criar charadas para cada palavra”. No Brasil, as pistas estão dentro dos quadradinhos, sendo o estilo direto.

“É como se as palavras tivessem virado um tipo de equação matemática, na qual você precisa se assegurar de que todas as letras se cruzem na página ao mesmo tempo em que pertençam a palavras reais. Agora, o processo foi digitalizado e comecei a usar softwares de construção de palavras cruzadas, como todo mundo.”

Até os 25 anos, Anna construiu suas palavras cruzadas com papel quadriculado e dicionários. Então, com um software para agilizar o processo, ela sentiu que estava “trapaceando”. “Ao entender que estava fazendo de mim mesma menos competitiva, comecei a usar o software.”

Anorexia

A família de Anna não entendia sua paixão. “Minha irmã mais velha meio que me trollava, achava que eu era nada ‘cool’. Ela mudou de opinião”, conta. “De muitas formas, acho que (minha família) não entendia bem a mecânica da minha mente, e acho que eu também não. Mas era o que eu gostava.”

Depois de desenvolver anorexia na adolescência, as cruzadinhas se tornaram um mecanismo usado para se acalmar. Por volta dessa época, seu namorado mandou o trabalhou de Anna para Will Shortz, um criador de palavras cruzadas conhecido e editor do New York Times.

“Shortz ficou muito entusiasmado”, diz Anna, “principalmente porque eu tinha 19 anos. Ele correu para publicar (meu trabalho) porque queria que eu estivesse entre seus construtores adolescentes (de cruzadinhas). Ele foi muito claro: se eu fizesse minhas revisões muito rapidamente, seria a mais jovem mulher a ser publicada nas palavras cruzadas do New York Times.”

Contudo, como ela fazia suas cruzadas à mão, “não fui tão rápida e me tornei a segunda mulher mais jovem a ser publicada no Times”. Preocupados com a saúde de Anna, a família e a jovem concordaram em tentar a técnica de realimentação em que ela fazia três grandes refeições intercaladas com palavras cruzadas.

“Descobri que havia uma espécie de escape do meu corpo quando eu escrevia as palavras cruzadas. Eu entrava numa espécie de matrix virtual de palavras que me dava uma espécie de barato como compensação”, explica ela.

“Entendi que o que eu fazia era difícil, o que me fez sentir meio virtuosa e me permitiu escapar dos desconfortos corporais”. Depois de uma longa recuperação, Anna se distanciou e se reaproximou de sua paixão e, hoje, está na dianteira da nova geração de criadores de palavras cruzadas nos Estados Unidos.

Fonte: BBC

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