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Pureza Lopes Loiola, a mãe que lutou para salvar o filho da escravidão

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Pureza Lopes Loiola é magnífica, é ultrajante, é exemplo e é uma pena que poucos sabem disso. Felizmente, Renato Barbieri, o renomado cineasta brasileiro, mudou tal realidade. O profissional, que colocou Loiola sob os holofotes – e com motivos de sobra – preparou um longa para imortalizar as batalhas da então desconhecida cidadã brasileira. “O cinema são os olhos do mundo”, disse Loiola, uma gigante que criou cinco filhos vendendo tijolos em Bacabal (MA), a 240 quilômetros de São Luís.

Vida

A vida de Loiola nunca foi fácil, mas sua humilde trajetória mudou drasticamente em 1990. Na época, seu filho caçula, Antônio Abel Lopes Loiola, havia ido buscar a sorte no garimpo. Um mês depois, sem receber nenhum tipo de notícia, Loiola decidiu seguir seu rastro. A incrível mulher partiu acompanhada apenas de uma bolsa e da roupa do corpo.

A busca pelo filho a transformou em um símbolo do combate ao trabalho escravo e deu vida ao enredo do longa Pureza (2019), de Barbieri. A produção já participou de 23 festivais ao redor do mundo e, agora, espera o fim da pandemia ocasionada pelo novo coronavírus para adentrar no circuito comercial.

Antes mesmo de ser eternizada em um filme, Loiola ganhou em Londres o Prêmio Anti-Escravidão da Anti-Slavery International, que, de acordo com a BBC, é considerada a “mais antiga entidade mundial de combate ao trabalho escravo”.

Loiola, em busca do filho

Loiola nasceu em Presidente Juscelino, um município que fica a 85 km de São Luís. Quando chegou em Bacabal, onde o marido tinha alguns parentes, já tinha três filhos. Por conta do fim de seu casamento, Loiola, que alfabetizou-se aos 40 anos com o objetivo de ler a Bíblia, se viu obrigada a depender da olaria.

Para ajudá-la, o filho Abel decidiu tentar fazer fortuna como garimpeiro. No entanto, após a partida do caçula, Loiola se viu alimentando, e diariamente, um grande vazio. Com o intuito de suprir a carência, telefonou para alguns parentes para que alguma informação pudesse acalentar seu coração.

Surpresos, os familiares disseram-lhe que não haviam sido contatados por ele. “Medo eu não tinha. Nunca tive. Mas tinha a certeza de que ia ir atrás dele, porque eu tenho um Deus. Eu chamava ele e dizia ‘não deixa eu morrer, deixa eu ir ao fim. Eu quero ir ao fim dessa briga'”, disse Loiola em entrevista à BBC News Brasil.

Sem encontrar nenhuma outra alternativa, Loiola partiu em busca do filho. Para sustentar-se, começou a trabalhar como cozinheira nas inúmeras fazendas do sul do Pará, onde acreditava que o filho tinha ido.

Escravidão

De fazenda em fazenda, Loiola ficou frente a frente com o drama vivido por centenas de brasileiros. Por sorte – ou acaso do destino -, as habilidades de cozinheira e a condição de mulher madura a tornaram confidente de muitos trabalhadores. Foi exatamente por conta dessa confiança, que Loiola esteve a par do sistema que mantinha os empregados como escravos.

De acordo com a BBC, Loiola nunca presenciou nenhum assassinato, no entanto, ouviu inúmeros rumores de que “o destino à espera de quem tentava se rebelar ou fugir eram covas sem identificação na floresta”.

O que Loiola viveu, para muitos, não era nada novo – era rotina, era a realidade, era, nada mais, que uma herança a ser adquirida, tanto que, na época, especificamente entre 1980 e 1991, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) identificou 3.144 casos de trabalho forçado em 32 propriedades do sul do Pará..

Abrindo mares, movendo montanhas

Apoiada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Loiola conseguiu estabelecer contatos com o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, no Pará e em Brasília. Além disso, pediu socorro por meio de longas cartas – todas escritas de próprio punho – a três presidentes da República: Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Segundo a BBC, o único que a respondeu foi Itamar Franco.

“Ali, em Brasília, ninguém tem coração, ali só se briga por dinheiro”, afirmou. Em um ano de luta, a mãe que buscou incessantemente o filho só recebeu ajuda de três pessoas, entre elas uma procuradora da República e um radialista.

Depois de lutar com unhas e dentes, e após receber um maior apoio das autoridades, Loiola conseguiu localizar e resgatar o filho caçula. Desde então, sua história segue alimentando almas, segue trazendo esperança. Sua luta ainda é citada por entidades de direitos humanos e servidores das três esferas quando se explora o universo do trabalho escravo e o filme Pureza, o qual estreou no 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro de 2019, é uma das várias maneiras de eternizar sua batalha.

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