
Afra Rafeeq, de 16 anos, morreu na segunda-feira (01/08) em um hospital no Estado de Kerala por complicações relacionadas à atrofia muscular espinhal (AME), uma condição genética rara que provoca fraqueza muscular e afeta o movimento e a respiração. A indiana ficou conhecida nas redes sociais ao compartilhar um vídeo que ajudou a arrecadar milhões para o tratamento de seu irmão mais novo.
“Ela aproveitou todas as alegrias possíveis da vida”, disse seu pai, PK Rafeeq.
De acordo com a família e os vizinhos de Afra, ela era uma jovem brilhante e talentosa que adorava cantar e estudar, mesmo com as dores. Em 2021, ela conquistou fãs em todo o país após um vídeo viral.
Seu pai afirma que antes disso, Afra não saía muito de casa. Ela foi diagnosticada com AME quando tinha quatro anos e só saia de casa para ir à escola e ao hospital.
“Ficamos bastante recolhidos e concentramos nossos esforços em conseguir o tratamento necessário para ela”, diz ele.
No entanto, o seu irmão mais novo Muhammed também foi diagnosticado com AME. Rafeeq afirma que a família ficou devastada “porque sabíamos a dor pela qual nossa filha já havia enfrentado”.

Foto: Afra Rafeeq/ YouTube/ BBC
A AME é uma doença que pode ser fatal e ocorre em uma a cada 6 mil a 10 mil crianças. Ela afeta os neurônios motores, células da medula espinhal, e piora conforme a criança envelhece. Os portadores de AME têm dificuldades para manter o pescoço ereto, sentar, ficar de pé e andar.
Afra, de acordo com o pai, estava desesperada para garantir que Muhammed recebesse o tratamento médico adequado. Isso incluía o acesso ao Zolgensma, um dos medicamentos mais caros do mundo, que possui uma réplica do gene ausente em crianças com AME e é dado em dose única em menores de dois anos.
Muhammed já tinha um ano e meio, então, sua família tinha pouco tempo. No entanto, o medicamento é muito caro, uma dose de Zolgensma custa 180 milhões de rúpias (quase R$ 12 milhões) e precisa ser importada dos EUA.
Desde a aprovação de Zolgensma, em 2019, diversos indianos recorreram a financiamentos coletivos para comprar o remédio. O Ministério da Saúde da Índia permite o financiamento coletivo voluntário de doenças raras, como a AME.

Foto: PK Rafeeq/ BBC
A família de Afra recorreu a muitas fontes, incluindo financiamentos coletivos e arrecadação de dinheiro pelo conselho local da sua vila. No entanto, eles conseguiram levantar um baixo valor, por isso, fez um vídeo com a ajuda da sua prima.
“Eu não quero que meu irmão sofra a dor que tenho”, afirma ela no vídeo, que foi postado online.
O vídeo viralizou nas redes sociais, o que chamou a atenção da imprensa. “De repente, dinheiro começou a vir de toda parte”, conta YL Ibrahim, membro do conselho da aldeia.
Em três dias, o fundo para o tratamento de Muhammed recebeu 467,8 milhões de rúpias (mais de R$ 31 milhões). Por causa disso, Afra precisou gravar um vídeo pedindo para que as pessoas parassem de enviar dinheiro.
“Tentamos tantas coisas, mas foi o vídeo dela e o que ela disse que comoveu as pessoas”, diz Ibrahim.
Após Muhammad receber a sua dose do remédio, o comitê usou os fundos extras para ajudar outras duas crianças com AME. Além disso, o restante do dinheiro foi dado ao governo de Kerala.
Afra criou um canal no YouTube para atualizar as pessoas sobre o progresso de seu irmão. Os vídeos mostravam ela passando tempo com seu irmão e irmã em casa e comemorando aniversários e festivais. Ela também falava sobre o tratamento médico e a fisioterapia de Muhammed.
A criança, que atualmente tem dois anos, consegue engatinhar sozinha e ficar de pé com ajuda de algum apoio. “Ele não consegue ficar de pé ou andar sozinho ainda. Mas ele tem alguma força em suas pernas agora”, informou Rafeeq.

Foto: Reprodução/ The Indian Express
No entanto, a condição de Afra continuou piorando. Nos últimos dias de sua vida, ela cerrava os dentes de dor. O último vídeo publicado no YouTube da indiana mostra a família visitando um hospital na capital do Estado, Thiruvananthapuram.
Logo após ser confirmada a morte da adolescente, milhares de pessoas deixaram mensagens de condolências no vídeo que havia viralizado. Para o pai de Afra, os vídeos dela ajudaram a aumentar a conscientização sobre a AME na Índia.
“Acho que esse era o propósito da vida dela”, diz ele. “Muitas pessoas entenderam o que é a AME e o que essa doença faz por causa de Afra.”
Fonte: BBC






