Livro de Duane Davis reacendeu a investigação sobre o assassinato de Tupac Shakur décadas depois do crime. Foto: Reprodução.

Livro sobre assassinato de Tupac Shakur leva autor a julgamento décadas depois

Quase 30 anos depois do assassinato de Tupac Shakur, um livro de memórias voltou a colocar o crime no centro das atenções. A obra, publicada em 2019 por Duane Keith Davis, conhecido como “Keffe D”, reúne relatos sobre a noite em que o rapper foi baleado em Las Vegas, em setembro de 1996.

Livro de Duane Davis reacendeu a investigação sobre o assassinato de Tupac Shakur décadas depois do crime. Foto: Reprodução.

Livro de Duane Davis reacendeu a investigação sobre o assassinato de Tupac Shakur décadas depois do crime. Foto: Reprodução.

Na época, o caso permaneceu sem solução durante décadas. Entretanto, investigadores encontraram no livro informações que ajudaram a reabrir a investigação. Em 2023, um grande júri indiciou Davis por homicídio. Agora, o conteúdo da publicação ocupa um lugar central no julgamento, enquanto a defesa tenta convencer os jurados de que parte do relato é fictícia.

O que o livro diz sobre a morte de Tupac

Intitulado Compton Street Legend, o livro apresenta Davis como uma figura importante da gangue South Side Compton Crips. Na publicação, ele afirma ter participado dos acontecimentos que antecederam o ataque contra Tupac.

Segundo o relato apresentado na obra, Davis conseguiu a arma utilizada no crime e estava no carro que perseguiu o veículo ocupado por Tupac e Marion “Suge” Knight naquela noite.

Depois de uma briga ocorrida horas antes, Tupac e integrantes de seu grupo entraram em confronto com Orlando Anderson, sobrinho de Davis. Posteriormente, um carro branco se aproximou do BMW em que Tupac estava. Então, um dos ocupantes abriu fogo.

Tupac recebeu quatro tiros e morreu seis dias depois, aos 25 anos. Anderson, apontado durante anos como possível responsável pelos disparos, sempre negou participação no assassinato.

Como o livro chamou a atenção dos investigadores

Inicialmente, Compton Street Legend recebeu pouca atenção fora de comunidades dedicadas ao hip-hop e a crimes reais. Porém, um detetive do Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas percebeu que a obra poderia trazer informações relevantes para um caso que continuava sem solução.

O investigador passou a analisar o conteúdo discretamente. Em 2023, ele apresentou trechos do livro a um grande júri. Como resultado, os jurados indiciaram Davis por homicídio.

Além disso, a publicação ganhou importância porque os investigadores ainda não encontraram elementos fundamentais do crime, como a pistola Glock calibre .40 utilizada no ataque ou o Cadillac branco que teria transportado Davis e outros três homens. Os outros ocupantes do veículo morreram desde então.

Defesa diz que livro pode ser fictício

A grande disputa do julgamento envolve justamente a credibilidade das declarações de Davis.

A promotoria considera que os relatos representam uma espécie de confissão. Afinal, Davis apresentou o livro como uma obra baseada em suas próprias experiências e descreveu acontecimentos relacionados diretamente ao assassinato de Tupac.

Por outro lado, a defesa deve argumentar que Davis utilizou exageros e elementos fictícios para tornar a publicação mais atraente e lucrativa.

Os advogados também questionam a participação do coautor Yusuf Jah. Em depoimento à polícia, Jah afirmou que escreveu o livro com base em conversas que teve com Davis. Segundo ele, algumas passagens vieram de informações que Davis teria ouvido de outras pessoas.

Além disso, Jah disse aos investigadores que Davis não teria revisado os rascunhos antes da publicação. Dessa forma, a defesa pretende colocar em dúvida até que ponto o conteúdo representa acontecimentos que Davis realmente presenciou.

Davis já havia falado sobre o assassinato

O livro não foi a primeira vez que Davis falou publicamente sobre a morte de Tupac.

Anos antes, em 2008 e 2009, investigadores conseguiram entrevistá-lo detalhadamente sobre o caso. Naquele período, Davis também passou a colaborar como informante confidencial.

Os investigadores, porém, decidiram não processá-lo naquele momento porque haviam concordado que as informações fornecidas por ele não poderiam ser utilizadas posteriormente contra ele.

A situação mudou depois que Davis concedeu uma entrevista para uma produção da BET, em 2018, e publicou suas memórias no ano seguinte. Assim, uma nova equipe de investigadores passou a analisar suas declarações sob uma perspectiva diferente.

A rivalidade que marcou o hip-hop dos anos 1990

O assassinato de Tupac aconteceu durante um dos períodos mais tensos da história do hip-hop americano.

Na década de 1990, a disputa entre a Death Row Records, ligada a Suge Knight e Tupac, e a Bad Boy Records, de Sean “Diddy” Combs, alimentava uma forte rivalidade entre artistas da Costa Oeste e da Costa Leste dos Estados Unidos.

Além disso, as tensões entre diferentes grupos de rua acabaram se misturando às disputas da indústria musical.

Em setembro de 1996, Tupac estava em Las Vegas para acompanhar uma luta de Mike Tyson. Depois do confronto com Orlando Anderson, ele entrou no carro dirigido por Suge Knight.

Mais tarde naquela noite, outro veículo se aproximou e os ocupantes dispararam contra o carro. Tupac foi atingido quatro vezes e morreu no hospital seis dias depois.

O que acontece no julgamento

Davis, atualmente com 63 anos, declarou-se inocente e negou envolvimento no assassinato.

A seleção do júri começou em Las Vegas, e o julgamento deve durar aproximadamente um mês. Durante o processo, os jurados deverão ouvir detalhes sobre a rivalidade entre as gravadoras, a disputa entre gangues e as declarações feitas por Davis ao longo dos anos.

A promotoria sustenta que Davis organizou o ataque e forneceu a arma utilizada pelos atiradores. No entanto, as autoridades ainda não identificaram de forma conclusiva quem efetuou os disparos.

Por isso, o conteúdo de Compton Street Legend ganhou um peso especial no processo. O livro pode ajudar a acusação a reconstruir os acontecimentos daquela noite, mas a defesa pretende explorar as contradições e possíveis exageros presentes na obra.

Um livro que mudou o rumo de um caso histórico

O caso de Tupac permaneceu entre os maiores mistérios da história do hip-hop por quase três décadas. Entretanto, as declarações de Duane Davis e a publicação de seu livro ajudaram a dar novo impulso à investigação.

Agora, o conteúdo que Davis publicou como um relato de sua própria vida se tornou uma das principais peças do julgamento.

Ainda assim, caberá aos jurados decidir se as informações apresentadas no livro correspondem a fatos reais ou se parte da narrativa foi criada para construir uma imagem de poder e influência no mundo do hip-hop.

Enquanto isso, o julgamento representa uma nova etapa em uma investigação que começou em 1996 e atravessou gerações. Quase 30 anos depois da morte de Tupac Shakur, a Justiça americana finalmente tenta determinar qual foi, de fato, o papel de Duane Davis no assassinato que marcou para sempre a história do rap.

Fonte: Folha

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