
Em pleno 2025, ainda existem julgamentos em que a palavra bruxaria aparece como acusação principal. Foi exatamente o que aconteceu na Zâmbia, onde dois homens foram condenados por tentar usar feitiçaria para assassinar o presidente Hakainde Hichilema. A história parece saída de um roteiro de cinema, mas é real e já entrou para os registros do país africano.
Os acusados são Leonard Phiri, um líder comunitário local, e Jasten Mabulesse Candunde, cidadão de origem moçambicana. Ambos foram presos em dezembro, depois que uma faxineira relatou ouvir sons estranhos vindos de onde eles estavam reunidos. Ao investigar, a polícia encontrou objetos que chamaram atenção: um camaleão vivo, amuletos variados, um pano vermelho, um pó branco misterioso e até o rabo de um animal.
No tribunal, a cena foi digna de folclore. Os réus admitiram a posse dos amuletos e Phiri chegou a afirmar que o rabo de camaleão, usado em certos rituais, poderia levar a vítima à morte em até cinco dias. Segundo o juiz, a intenção de usar feitiçaria contra o chefe de Estado não só ameaçava a vida de Hichilema, como também transformava os acusados em “inimigos do povo zambiano”. Resultado: ambos receberam a pena de dois anos de prisão com trabalhos forçados.
A acusação ainda levantou outra suspeita. Os homens poderiam estar agindo sob contrato do irmão de Emmanuel “Jay Jay” Banda, um deputado da oposição já investigado por crimes como roubo e tentativa de assassinato. Ou seja, além da dimensão espiritual, o caso ganhou também um claro tom político.
Mas como alguém pode ser condenado por bruxaria em pleno século XXI? A resposta está em uma legislação antiga herdada do período colonial britânico. A lei ainda criminaliza práticas associadas à feitiçaria, mesmo que boa parte da população conviva naturalmente com tradições espirituais locais.
O caso reacendeu o debate na Zâmbia sobre o peso dessas crenças no sistema jurídico. Críticos afirmam que usar uma lei colonial ultrapassada para tratar de questões espirituais é um retrocesso. Outros acreditam que, independentemente da fé envolvida, o mais grave foi a ameaça contra o presidente, o que justificaria a condenação.
Curiosamente, o próprio Hakainde Hichilema já se manifestou sobre o assunto em entrevistas. Ele garante que não acredita em feitiçaria.
“Pessoalmente, nunca acreditei em feitiçaria, como pessoa, como família, como cristão”, disse em conversa ao podcast Africa Here & Now, da BBC.
Ainda assim, a crença em forças espirituais é comum na Zâmbia. Muitos cidadãos defendem que essas práticas fazem parte da identidade cultural do país e não deveriam ser criminalizadas. Para alguns, o julgamento foi menos sobre feitiçaria e mais sobre política e poder.
Antes que você pense que esse tipo de caso é raro, saiba que acusações de bruxaria ainda movimentam tribunais em várias partes da África. Em alguns países, mulheres idosas já foram perseguidas por supostamente praticar magia, e comunidades inteiras atribuem doenças ou tragédias a “trabalhos espirituais”.
Essas crenças têm raízes profundas e fazem parte da forma como sociedades tradicionais explicam fenômenos que a ciência moderna trataria de outra maneira. O problema surge quando essas explicações são usadas como justificativa em tribunais ou como ferramenta política.
Voltando ao caso da Zâmbia, o camaleão vivo e os amuletos viraram quase símbolos do julgamento. Para os investigadores, esses itens eram a prova de que os acusados estavam realmente preparando um ritual de feitiçaria. Para estudiosos de cultura local, eles também representam a mistura de crença popular com tensões políticas modernas.
Fonte: Aventuras na História






