Conheça a história da única múmia do Egito que ainda existe no Brasil

Avatar for Mayara MarquesMayara MarquesHistóriasetembro 11, 2024

Poucos podem se lembrar da história da múmia egípcia no Brasil, a única que existe no nosso país.

Os antigos egípcios são lembrados como uma das civilizações mais antigas e influentes do mundo. Foram responsáveis por muitos avanços técnico-científicos de sua época e pelo surgimento de reis em um dos impérios mais duradouros da história.

Eles lançaram as bases para disciplinas como aritmética, geometria, filosofia, religião, engenharia e medicina. Também promoveram grandes avanços na escrita e nas técnicas agrícolas. Contudo, os elementos mais conhecidos dessa civilização estão ligados à engenharia e à medicina: as pirâmides e as múmias.

As múmias tinham grande importância na cultura egípcia, pois acreditavam que os mortos precisavam de seus corpos preservados para garantir a vida após a morte. A mumificação fazia parte de um extenso processo de sepultamento, considerado sagrado para os egípcios.

Os egípcios obtiveram notável sucesso na preservação das múmias. Prova disso é que muitas ainda são encontradas no Egito, demonstrando que as técnicas utilizadas permitiram a conservação dos corpos por milênios.

Graças a esse processo, essas múmias podem ser exibidas em museus ao redor do mundo. Embora o Brasil não seja um país comum para abrigar múmias egípcias, aqui se encontra Tothmea, uma mulher que viveu no Egito entre 2.500 e 2.700 anos atrás.

Via UOL

Múmia egípcia no Brasil

Conforme divulgação, Tothmea foi descoberta no Egito, na segunda metade do século 18, na região da antiga capital Tebas (atual Luxor). Pouco tempo depois, em 1886, Samuel Sullivan Cox, então secretário do governo americano, visitou o país e recebeu a múmia de Tothmea, junto com outra múmia, como presente de um amigo.

Tothmea permaneceu guardada por cerca de dois anos, possivelmente em um depósito. No entanto, em 1888, o diretor do Museu George West, localizado na vila de Round Lake, nos EUA, tomou conhecimento da múmia e conseguiu obtê-la para exibição em seu museu.

De acordo com o arqueólogo brasileiro Moacir Santos, a múmia foi parcialmente desenfaixada em uma apresentação pública no auditório de Round Lake, permitindo que o público visse mais detalhes. Posteriormente, chegou ao Museu George West, onde permaneceu em exibição por 31 anos.

No entanto, em 1919, com o fechamento do museu, Tothmea enfrentou um período conturbado. A múmia foi armazenada em um celeiro e, de acordo com relatos locais, foi maltratada, sendo até utilizada por moradores em passeios de carruagem e como decoração de Halloween.

Roubo

As crianças acabaram colocando a múmia em pé na porta da casa da diretora da escola da vila. Foi nessa época que o caixão dela, com pinturas e tudo, se perdeu, explicou Moacir Santos. Provavelmente, foi também nesse período que a múmia sofreu um dano significativo, quando um objeto caiu sobre seu rosto, causando uma quebra.

Tothmea só encontrou um novo local para armazenamento em 1939, mas esqueceram dela praticamente por mais de três décadas. Somente em 1972 a exibiram novamente.

No entanto, registros antigos indicam que o diretor do novo museu não gostou de sua aparência e chegou a considerar removê-la da coleção. Ainda assim, Tothmea permaneceu no museu por alguns anos, já que estava emprestada e não doada.

Em 1978, a historiadora Mary Hesson entrou em contato com o museu, solicitando o retorno da múmia a Round Lake, e atenderam ao pedido.

No entanto, o museu de Round Lake já não existia mais, então Tothmea voltou ao escritório da historiadora, que até sugeriu um sepultamento, mas isso nunca aconteceu.

Quase uma década depois, em março de 1987, Tothmea foi adquirida pelo Museu Rosacruz de San Jose, na Califórnia, onde ficou guardada por sete anos.

Finalmente, na década de 1990, chegou a múmia egípcia no Brasil, pelo Museu Egípcio e Rosacruz, em Curitiba, Paraná, chegando lá em 10 de abril de 1995, onde permanece em exibição até hoje.

Tothmea

No Brasil, o arqueólogo Moacir Santos iniciou um projeto de pesquisa sobre a múmia em 1997, e foi nesse processo que ele começou a reunir mais fontes e informações detalhadas sobre ela, além de realizar estudos mais aprofundados. Ele contou que, embora algumas informações sobre a peça da Califórnia tenham chegado, ainda não eram suficientes.

A partir de uma tomografia da múmia, os pesquisadores descobriram que Tothmea faleceu aos 25 anos e tinha cerca de 1,48 metro de altura.

Eles sabem disso principalmente pela dentição e pelo desenvolvimento dos ossos. Seu esqueleto está em perfeito estado de conservação, e sua dentição também estava preservada de forma excelente.

Embora a causa da morte da egípcia não tenha sido descoberta, Vivian Tedardi, supervisora cultural do Museu Egípcio Rosacruz, revelou uma curiosidade interessante: o caixão de Tothmea traz a inscrição “servidora de Ísis”, o que sugere que ela pode ter sido cantora ou musicista nos templos dedicados à deusa Ísis.

Na época em que ela viveu, as mulheres não ocupavam cargos de sacerdotisas, então sua atuação estaria mais associada à música, acrescenta Tedardi. Essa é a única informação conhecida sobre sua vida no antigo Egito.

Atualmente, os visitantes do museu em Curitiba podem observar a múmia egípcia no Brasil de perto, incluindo alguns ossos do quadril, antebraço e mão, além de partes de pele seca e uma unha preservada. Infelizmente, além do rosto quebrado, seus pés também sofreram danos, provavelmente quando ela foi desenfaixada.

O que chama a atenção é que identificou-se entre as faixas de tecido uma que parece ser parte de uma barra de vestido. Isso leva a entender que as faixas de mumificação eram feitas das roupas que a pessoa usou em vida.

Via UOL

Novas percepções

Em 2013, o designer forense brasileiro Cícero Moraes trouxe novas revelações sobre a múmia egípcia no Brasil ao realizar uma reconstrução facial 3D da mulher egípcia, recriando digitalmente seu rosto.

Após restaurar a face fragmentada da múmia, ele desenvolveu uma aproximação de como seria o rosto de Tothmea. Em 2019, Moraes fez uma nova reconstrução, mais moderna e detalhada.

A imagem reconstruída mostra Tothmea como uma mulher negra, com olhos cor de mel, cabelos longos e adornos.

Mas é importante lembrar que se trata de uma aproximação facial forense; eles não estão apresentando um retrato exato da pessoa como era, destaca Cícero. Detalhes como os cabelos e os adereços se basearam em estudos de colares da época e na etnia dos povos daquela região.

 

Fonte: UOL

Imagens: UOL, UOL

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