Natureza

Conheça o fungo que escraviza moscas

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No ano de 2015, a bióloga Carolyn Elya, pesquisadora da Universidade de Harvard, se deparou com algo diferente no quintal de sua casa, nos Estados Unidos. Elya notou que no local estava uma espécie de fungo “zumbi”.

A estranha criatura possuía a capacidade de controlar o comportamento de outros animais, em especial, moscas, infectando e praticamente escravizando-as.

Existem vários fungos parasitas entre os insetos conhecidos pela ciência. Eles costumam agir de maneira simples, infectando seus hospedeiros, controlando-os e buscando mais vítimas.

A equipe de especialistas descreveu, em uma pesquisa publicada no repositório científico bioRxiv, que existem “muitos micróbios [que] induzem mudanças comportamentais marcantes em seus hospedeiros animais”.

“Mas como eles alcançam esses efeitos é pouco compreendido, especialmente em nível molecular”, afirmam os cientistas. “Isso se deve em grande parte à falta de um sistema robusto passível de manipulação molecular moderna”.

As moscas escravizadas

Foto: Divulgação/Elya et al, 2017

O fungo, nomeado como Entomophthora muscae, escraviza principalmente uma mosca tida como “organismo modelo” da biologia, a Drosophila melanogaster, também conhecida como mosca-da-fruta.

Na pesquisa, os pesquisadores informaram que quando a mosca é infectada pelo fungo, ela morre depois de quatro até sete dias. O comportamento normal vai até o último dia, momento em que ela para de voar.

Nesse momento, ocorre algo peculiar nessa mudança de comportamento provocada pela infecção: o inseto vai até algum objeto vertical e utiliza o seu aparelho bucal para se colar na superfície, totalmente trêmula.

A mosca, que vira praticamente um zumbi, movimenta suas asas de maneira violenta nos dez minutos seguintes até morrer, o que acontece depois de algumas horas. Logo depois, o fungo toma posse dela por completo, transformando o corpo em uma colônia de fungos que, depois de cinco horas, lança esporos no ar, o que anuncia o fim da infecção.

“Nossas 20 moscas infectadas por laboratório manifestaram os comportamentos moribundos característicos de infecções por E. muscae: em seu último dia de 21 vida, elas sobem para um local alto, estendem suas probóscidas e ficam afixados ao substrato, então finalmente levantam suas asas para fazer uma pose de morte característica que abre caminho para esporos que são ejetados à força de seu abdômen para pousar e infectar outras moscas”, informa a equipe de pesquisadores.

Elya destacou que depois da mosca ter contato com o fungo, o último invade o sistema nervoso do hospedeiro em 48h. As partes mais afetadas são as do cérebro, com o objetivo de mudar o comportamento do animal infectado.

Em relação ao estudo, os cientistas ponderaram: “considerando o vasto conjunto de ferramentas moleculares e neurobiológicas disponíveis para D. melanogaster, acreditamos que este novo sistema estabelecido de E. muscae permitirá um rápido progresso na compreensão de como os micróbios manipulam o comportamento de animais”.

A pesquisa ainda pode ajudar na investigação para o tratamento de doenças como Alzheimer, de acordo com o pesquisador David Hughes, da Universidade Estadual da Pensilvânia. À revista New Scientist, ele afirmou: “é incrível ter um modelo totalmente rastreável para estudo”.

Os fungos que transformam moscas em “zumbis”

Fungos estudados pelos pesquisadores (Foto: Divulgação/Universidade de Copenhagen)

Em janeiro de 2021, uma pesquisa da Universidade de Copenhagen apontou que fungos Strongwellsea tigrinae e Strongwellsea acerosa possuem a capacidade de transformar moscas em zumbis. O estudo desenvolvido por dinamarqueses foi publicado no Journal of Invertebrate Pathology.

De acordo com os autores do estudo, a espécie de invasores faz com que as moscas vivam por dias, diferente do processo comum aos fungos. 

Dessa maneira, mesmo “dopadas” por uma substância injetada pelos agentes parasitas, as moscas continuam realizando suas atividades normais, enquanto seus tecidos são consumidos pelos invasores.

“Suspeitamos que esses fungos produzam substâncias semelhantes às anfetaminas que mantêm os níveis de energia de uma mosca elevados até o fim”, afirmou Jorgen Eilenberg, principal autor do estudo. 

Por isso, estima-se que, depois da infecção, as moscas só morrem quando existe mais nada que os fungos consigam consumir.

Fonte: Aventuras na História

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