
Pontes podem se tornar verdadeiros pontos turísticos, mas independentemente do seu propósito, elas têm o mesmo objetivo: ligar um lugar ao outro. Essa ligação pode ser feita dentro de um mesmo país ou então entre países totalmente diferentes. Por mais que seu propósito possa ser facilitar a locomoção entre destinos, às vezes, sua construção traz alguns malefícios. Como no caso da construção da segunda maior ponte do Brasil que ameaça ecossistemas e comunidades.
Essa ponte irá ligar Salvador à Ilha de Itaparica. Contudo, ela irá devastar áreas de manguezais, corais e recifes, o que consequentemente irá comprometer o equilíbrio ambiental, o sustento de comunidades pesqueiras e a sobrevivência de várias espécies marinhas, como por exemplo, as baleias-jubarte e tartarugas.
“Parece que houve um processo proposital de sucateamento do serviço de ferry-boat, com o intuito de gerar insatisfação e, assim, facilitar a aceitação da construção da ponte”, denunciou Maria José Pacheco, secretária-executiva do Conselho Pastoral dos Pescadores na Bahia.
Hoje em dia, o transporte marítimo da Baía de Todos-os-Santos tem uma lista grande de reclamações. Como atrasos, falta de higiene, problemas mecânicos nas embarcações e até colisões. No topo de tudo isso, uma concessionária antiga foi acusada de estar fazendo superfaturamento e de ter uma má gestão, e a atual já recebeu multas milionárias.
Para se ter uma noção, o ferry-boat de Salvador até Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, demora 50 minutos. Enquanto que com a construção da ponte o trajeto deve ser feito em 15 minutos. As obras para a construção da segunda maior ponte do Brasil estão previstas para começar no ano que vem e durarem quatro anos. Ao todo ela terá 12,4 quilômetros, perdendo somente para a ponte Rio-Niterói que tem 13,29 quilômetros.

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A construção da segunda maior ponte do Brasil é atraente para determinados setores por conta das limitações que o ferry-boat tem. Por exemplo, ela será uma opção para a produção agrícola do Recôncavo Baiano.
No entanto, a poluição que ela irá causar por conta dos caminhões atravessando traz várias preocupações nessa região onde a paisagem natural e o modo de vida interiorano são preservados.
“A ponte será muito invasiva e não trará nenhum benefício efetivo para a ilha, mas estará a serviço do progresso do estado da Bahia como forma de escoar a produção para Salvador”, criticou Tânia França, moradora de Itaparica e representante da Associação Religiosa Cultural e Ambientalista (Arca).
Para quem não sabe, a Baía de Todos-os-Santos abrange uma área de 1.233 km² e banha 18 municípios. Ao todo são 4,5 milhões de habitantes distribuídos entre a região metropolitana de Salvador e cidades vizinhas. Ela é bastante rica em biodiversidade marinha e costeira da Mata Atlântica, além de ser o sustento de várias comunidades de pescadores e marisqueiras. Essa populações devem ser impactadas pela construção da segunda maior ponte do Brasil.
“O estudo de impacto ambiental tem a função de subsidiar a licença, que não deveria ter sido emitida, pois o estudo está incompleto”, afirmou Severino Agra, biólogo, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e cofundador do Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá).
Fauna e pesca

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Ainda de acordo com Agra, fazer a cravação dos pilares para a ponte faz ruídos subaquáticos e vibrações que podem mudar o comportamento e até diminuir as populações de várias espécies, como a de corais e recifes que são fundamentais para o equilíbrios do ecossistema.
Além disso, todos os 139 pilares podem se tornar uma barreira e dificultar a passagem de mamíferos grandes como as baleias-jubarte. “A ocorrência da baleia-jubarte na Baía de Todos-os-Santos era bem rara até cinco anos atrás, quando passou a ocorrer com maior quantidade apesar de todos os problemas antrópicos, como o tráfego de grandes navios”, afirmou à Mongabay Enrico Marcovaldi, pesquisador do Projeto Baleia-Jubarte, que tem um centro de observação na Praia do Forte, em Salvador, há 25 anos.
Atualmente a construção está na fase de sondagem geotécnica, que faz a análise do solo, tanto em terra quanto no mar com balsas que fazem 102 perfurações e coleta de amostras. Isso já coloca a subsistência de várias comunidades em risco. Uma delas é o Quilombo Alto do Tororó, no bairro de São Tomé, que existe desde o século XIX.
“Nossa preocupação virou desespero, porque nos anos de obra vão desaparecer todos os corais e recifes onde os peixes que capturamos procuram alimento. Já foi grande a quantidade de espécies de peixes, crustáceos e moluscos, mas hoje impera a escassez devido à poluição da baía. A construção da ponte será o golpe de misericórdia na pesca artesanal”, resumiu J. Salvador da Paz Barros, mestre do quilombo.
Fonte: Mongabay
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