Nos últimos meses, com o aumento da presença militar americana no Caribe e operações dos EUA em áreas próximas à costa venezuelana, episódios inéditos do programa passaram a reforçar discursos de resistência. Em uma das animações divulgadas em setembro, logo após declarações de Donald Trump sobre operações contra supostos barcos de drogas, o personagem abandona seu traje vermelho tradicional e veste um uniforme militar, simbolizando preparo diante de ameaças externas.
Mensagens contraditórias marcam discurso oficial
A exibição do personagem ocorre paralelamente a declarações divergentes dentro do próprio governo venezuelano. Embora o regime afirme que a população deve estar preparada para possíveis agressões militares, Maduro também tem buscado se apresentar como moderador, defendendo diálogo e minimizando o risco imediato de conflito. A disparidade entre o discurso propagado e a vida cotidiana é perceptível em Caracas. Relatos internacionais indicam que, diferentemente de outras campanhas de mobilização promovidas pelo chavismo, a capital venezuelana não foi tomada por outdoors, faixas ou murais instando apoio a ações de resistência. A narrativa atual parece concentrar-se na mídia estatal e em conteúdo digital.
Maduro intensifica aparições públicas
Desde o agravamento das tensões com os EUA, Maduro ampliou significativamente sua exposição pública. Apesar de antes manter eventos reduzidos, o presidente passou a discursar com maior frequência, sempre acompanhado de forte esquema de segurança. Em uma dessas aparições, chegou a cantar a música “Imagine”, de John Lennon, pedindo ao governo americano uma abertura para diálogo direto.
Analistas apontam que, ao se colocar como defensor da paz, Maduro busca reforçar um contraste entre sua postura e a retórica dos Estados Unidos, especialmente no contexto da operação militar conduzida por Washington no Caribe.
Diosdado Cabello assume o papel de voz mais dura do regime
Enquanto Maduro tenta se distanciar de uma imagem beligerante, o ministro do Interior e influente líder chavista Diosdado Cabello desempenha o papel de linha-dura na propaganda oficial. Por meio de seu programa semanal “Con el Mazo Dando”, Cabello critica a oposição venezuelana, acusações internacionais e figuras associadas ao governo dos EUA.
Um alvo frequente é o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a quem Cabello atribui responsabilidade por incentivar Trump a adotar uma postura mais agressiva. Para membros do governo venezuelano, Rubio representa interesses políticos de grupos exilados, especialmente da comunidade cubano-americana sediada em Miami.
Forças Armadas reforçam divulgação de exercícios e operações
Paralelamente à campanha midiática, as Forças Armadas da Venezuela intensificaram a publicação de vídeos e imagens que mostram treinamentos militares, posições defensivas, milicianos armados e sistemas antitanque. As peças não mencionam diretamente Trump ou o governo americano, mas buscam transmitir a ideia de prontidão militar diante de ameaças externas.
Essa comunicação reforça a mensagem central do governo: a de que a Venezuela estaria preparada para resistir a intervenções, ao mesmo tempo em que seu líder máxima tenta se posicionar como figura de negociação.
Propaganda como estratégia de consolidação política
Especialistas em comunicação política afirmam que o retorno do “Super Bigode” ao centro da propaganda chavista reforça uma estratégia recorrente do regime: utilizar elementos simbólicos e narrativos para fortalecer a unidade interna, especialmente em momentos de tensão internacional. A figura heroica de Maduro busca funcionar como elemento de coesão e resistência nacional. A animação, assim como discursos oficiais e ações midiáticas das Forças Armadas, integra um esforço para controlar a narrativa interna sobre a crise, minimizando efeitos externos e fortalecendo a imagem do governo diante da população.
















