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Gene gay é mito, veja o porquê

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O comportamento de uma pessoa está completamente determinado em seus genes? Até que ponto sua personalidade e suas características sociais são adquiridas? Essas perguntas assombram a ciência há séculos. Um estudo que foi publicado na revista científica Science em 30 de agosto de 2019 oferece uma informação interessante. Isso porque ele derruba a ideia de existir um “gene gay”.

A pesquisa foi feita com o material genético de 492 mil pessoas por uma equipe de cientistas tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Com isso, descobriram que a ideia disseminada de “gene gay” não passa de um mito. A verdade é que as linhas de código do nosso genoma estão cheia de trechinhos que, sozinhos, determinam uma parte quase insignificante do comportamento sexual de um indivíduo. Porém, somados, a história é outra.

Dessa forma, os pesquisadores recolheram quase meio milhão de genomas por meio da empresa privada 23andMe, que oferece testes de ancestralidade, e a UK BioBank, um banco público com dados da saúde de meio milhão de cidadãos britânicos.

Sendo assim, conseguiram acesso a uma grande quantidade de material genético, mas ela não foi coletada para essa finalidade específica. Além disso, o estudo não buscou genes e sim polimorfismos de nucleotídeo único, conhecidos pela sigla em inglês SNP.

Para compreender o que são SNPs, é necessário entender que um gene é uma parcela de molécula de DNA. Essa molécula é montada como um colar de miçangas, que são bases nitrogenadas de quatro tipos: A, T, C e G. Assim, a sequência dessas letras guarda as informações para produzir uma proteína, que é o que constitui seu corpo inteiro. Basicamente, é uma receita de bolo.

DNA possui gene gay?

Os SNPs são essas letras que mudam de pessoa para pessoa. Com isso, os pesquisadores encontraram que a presença de uma letra G no lugar de T em uma posição específica do cromossomo 11 aumenta em 0,4% a chance de um homem ter relações com outro homem.

Outras quatro mudanças, nos cromossomos 4, 7, 12 e 15, têm efeitos parecidos. Enquanto algumas só valem para homens, outras só valem para mulheres e outras para os dois. Porém, o efeito de cada SNP é minúsculo.

Esse estudo é interessante para especular até que ponto as mudanças das letras alteram o comportamento do indivíduo. Por exemplo, o SNP do cromossomo 11 fica próximo ao gene OR5A1, que produz uma proteína associada ao olfato. Isso significa que poderia ter uma alteração na sensibilidade a alguns cheiros. No entanto, não se sabe ainda as conexões que podem ser feitas.

Dessa forma, o estudo não é conclusivo, mas sim tem um caráter que abre ainda mais perguntas, possivelmente servindo de base para milhares de outros estudos futuramente. “Esses 500 mil indivíduos foram suficientes para entender só uma pontinha do iceberg”, diz Diego Rovaris, especialista em genética do comportamento humano.

Efeito mínimo

Fonte: HUPES-UFBA

A pontinha do iceberg que o especialista cita é realmente pequena. Isso porque cinco SNPs, juntos, explicam menos de 1% do comportamento sexual. Considerando que o estudo foi feito com apenas meio milhão de amostras, é possível fazer um cálculo chamado de herdabilidade molecular, que oferece uma ideia de como seria o resultado com milhões de pessoas. Dessa forma, o cálculo prevê que os SNPs explicariam entre 8% e 25% da variação no comportamento sexual.

O cálculo da herdabilidade total, além de considerar os SNPs, também leva em consideração as interações entre os genes, fatores herdáveis externos aos genes e mais. Nesse caso, a herdabilidade total do comportamento sexual foi de 35%.

Como conclusão, não existe gene gay e a determinação do comportamento sexual é extremamente complexo. “O efeito de genes nos corpos é como o efeito de fumaça de cigarro nos pulmões. Se você fuma muito, aumenta as chances de ter câncer. Mas não é todo mundo que fuma que terá câncer. E há pessoas que não fumam e terão câncer. Vivemos em um mundo estatístico”, explica Richard Dawkins no livro O Capelão do Diabo.

Sendo assim, apesar do pensamento conservador de que existe uma cura gay, implicando que o comportamento sexual seja uma doença ou uma escolha, a ciência prova que a sexualidade é em alguma medida hereditária. Acontece que o argumento de que a homossexualidade é hereditária foi usada na década de 1930 por eugenistas para assassinar e castrar essas pessoas, tirando seus genes de circulação. Ou seja, independente da explicação, a homofobia segue encontrando caminhos para julgar o comportamento alheio.

Fonte: Superinteressante

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