Netflix causa polêmica ao filmar série do césio-137 em SP

Avatar for Henrique SantosHenrique SantosNotíciassetembro 16, 2025

Uma escolha que gerou revolta

Você sabia que o maior acidente radiológico fora de usinas nucleares aconteceu no Brasil? Foi em Goiânia, em 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado espalhou césio-137 pela cidade. O caso marcou gerações e até hoje é lembrado como uma das maiores tragédias urbanas do país. Agora, 38 anos depois, a história volta ao debate, não por causa da ciência, mas por causa da Netflix.

A plataforma anunciou a produção da minissérie “Emergência Radioativa”, baseada no desastre. Até aí, tudo bem. Mas a escolha de São Paulo como locação gerou críticas do Conselho Municipal de Cultura de Goiânia. Para eles, contar essa história fora da cidade que realmente viveu o trauma é, no mínimo, desrespeitoso.

Por que filmar em outro lugar?

O Conselho foi direto: Goiânia tem estrutura, profissionais e recursos culturais suficientes para receber uma produção desse porte. Além disso, filmar ali seria uma forma de honrar a memória coletiva da população que ainda carrega as cicatrizes do acidente. Em documento divulgado, os conselheiros afirmaram que rodar a série em São Paulo é transformar uma tragédia real em mero cenário artificial.

“Esse episódio não é apenas uma narrativa para ser encenada em estúdio; ele é parte integrante da nossa cidade e das marcas que ela carrega até hoje”.

A insatisfação aumenta porque a polêmica coincide justamente com o aniversário de 38 anos do desastre, em setembro de 2025.

Relembrando o desastre

Para quem não viveu a época, vale recapitular. Em setembro de 1987, catadores de sucata encontraram um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada. Dentro dele havia uma cápsula de césio-137, um material radioativo altamente perigoso. Sem saber dos riscos, eles levaram a peça para um ferro-velho, onde a cápsula acabou sendo rompida.

O pó luminescente chamou a atenção dos moradores, que chegaram a espalhar o material entre familiares e vizinhos, achando que era algo bonito. O resultado foi devastador: mais de 110 mil pessoas foram monitoradas, 249 foram diagnosticadas com contaminação e quatro morreram em decorrência da síndrome aguda da radiação. O acidente atingiu o nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares, a mesma usada para Chernobyl e Fukushima.

Cicatrizes que ainda existem

O impacto não ficou no passado. Até hoje, Goiânia convive com áreas interditadas. O ferro-velho onde a cápsula foi aberta foi escavado até oito metros de profundidade e concretado para sempre. A região virou um espaço vazio, onde nada pode ser construído. É um lembrete silencioso do risco invisível que pairou sobre a cidade.

A clínica onde o aparelho foi encontrado foi demolida, e no lugar foi erguido o Centro de Convenções de Goiânia, inaugurado em 1994. A ideia era transformar dor em futuro. Mas, mesmo com novos prédios, a memória continua viva para quem estava lá.

Memória x mercado

E é aí que entra a crítica à Netflix. Para os conselheiros, rodar a série em São Paulo apaga essa memória. Afinal, não se trata apenas de contar um enredo, mas de lidar com uma ferida aberta. Além da representatividade cultural, há também a questão econômica. Filmar em Goiânia geraria empregos, movimentaria a economia local e daria visibilidade à cidade que viveu de perto o desastre.

É como se Hollywood decidisse filmar uma história sobre Hiroshima em outra cidade qualquer. A lógica não faz sentido para quem conhece o peso da memória coletiva.

O que diz a Netflix?

Até o momento, a plataforma não respondeu diretamente às críticas do Conselho. A produção foi anunciada em junho e deve estrear em 2026. Com direção ainda não revelada, a minissérie promete trazer uma narrativa dramática sobre o impacto humano do desastre. Mas, para os goianos, o problema não está no roteiro, e sim no endereço das gravações.

Fonte: Aventuras na História

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