Curiosidades

Primeiro transplante pareado do país acontece com 2 casais e 2 rins

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O avanço da medicina possibilitou que várias coisas, antes pensadas como impossíveis, pudessem se realizar, como por exemplo, o caso dessas duas mulheres que tinham o mesmo desejo: doar o rim para seus maridos. Contudo, por conta da incompatibilidade sanguínea não era possível fazer esse transplante.

Até que, no dia 10 de março de 2020, os dois casais foram selecionados para participar de um projeto de pesquisa inédito no Brasil. Através dele, os quatro fizeram o primeiro transplante pareado do país. A cirurgia aconteceu no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).

A cirurgia aconteceu de forma simultânea. Nela, as esposas dos pacientes renais fizeram uma troca. Ivana Nascimento, 43, doou o rim dela para Enzo Perondini Filho, 58, e a esposa de Enzo, Alessandra Bueno Perondini, 47, doou o rim dela para Allan Nascimento, 40, marido de Ivana.

“A doação renal pareada (DRP) oferece a um par de doador/receptor incompatível a possibilidade de trocar o doador com outro par na mesma situação e realizar os transplantes, beneficiando ambos os receptores. A DRP se mostra como uma solução para resolver as incompatibilidades e aumentar o número de transplantes, diminuindo o tempo de espera e a fila com doador falecido”, explicou David Machado, médico nefrologista do HC e coordenador responsável pelo projeto de pesquisa do transplante pareado.

Primeiro casal

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Ivana e Allan estão juntos há 15 anos. Eles eram casados e faziam faculdade junto quando o comprador de tecidos e aviamentos teve uma crise durante uma aula. Por conta disso, Allan foi para um posto de saúde, fez alguns exames e então o médico lhe disse que ele tinha um problema grave no rim.

Na época, ela tinha 28 anos e foi diagnosticado com insuficiência renal. Ivana se ofereceu para doar o rim, mas era incompatível. Em 2013, Allan começou a fazer hemodiálise três vezes por semana no HC e estava na fila para um transplante desde então.

Nesses sete anos e dois meses, cinco parentes foram compatíveis com Allan. “Cada um deles passou por um processo que envolveu fazer diversos exames e avaliações. No final, eles foram descartados como doadores porque apresentaram algum problema de saúde no decorrer do processo, que durou em média de 9 a 12 meses”, contou ele.

Segundo casal

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Em 2014, o personal trainer e oito vezes campeão brasileiro de fisiculturismo, Enzo, descobriu uma doença renal. A descoberta veio depois de ele ir ao médico e fazer exames para tratar uma inflamação recorrente na planta do pé.

“Os resultados mostraram que os níveis de creatinina e potássio estavam altos. Fiquei internado para investigar a causa e fui diagnosticado com hipertensão e com insuficiência renal”, lembrou ele.

Durante um ano ele fez o acompanhamento pelo setor de nefrologia do HC para ver se sua função renal voltava. Contudo, nesse tempo, ele teve um quadro de neuropatia que atingiu os membros inferiores. Com isso, ele não tinha força nas pernas e só conseguia andar com bengala.

Com a piora do seu quadro, Enzo começou a fazer hemodiálise e, em 2016, entrou na fila de transplante. “Antes de saber que éramos incompatíveis, minha esposa se ofereceu para doar o rim dela para mim, mas eu achava um absurdo. Minha maior preocupação era ela doar, ficar com um único rim e no futuro ter algum problema renal”, disse ele.

Projeto

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Em 2018, Allan recebeu uma ligação da enfermeira Bruna Moura, coordenadora do ambulatório de transplante renal do HC. “Ela me ligou para perguntar se minha esposa ainda tinha interesse em doar o rim, no impulso acabei dizendo que sim sem falar com ela. A enfermeira me explicou que um médico do HC, David Machado, estava desenvolvendo um projeto de pesquisa inédito que iria selecionar duas duplas para fazer o chamado transplante pareado que funcionaria assim: minha esposa doaria o rim dela para um paciente renal e um parente desse paciente doaria o rim dele para mim. Desliguei com a enfermeira e liguei para Ivana para contar o que tinha acontecido e para perguntar: ‘você quer mesmo doar?'”, lembrou.

Logicamente, Ivana respondeu que sim. “Sempre quis, nunca titubeei. Assim que Allan me falou, acreditei na proposta do projeto, vi como uma superoportunidade, sabia que tinha chegado a hora dele. Como mulher, companheira e amiga, via o sofrimento dele e queria poder ajudar a reverter a situação. Não me incomodou saber que meu rim iria para outra pessoa, o importante é que meu marido seria beneficiado com a minha ação”, disse ela.

Já Enzo ficou sabendo do projeto através do nefrologista que atendia na clínica onde ele fazia o tratamento e que era da equipe de David Machado. “Ele me explicou o procedimento por cima, vi com bons olhos, mas tinha resistência em aceitar a ideia da minha esposa ser doadora, conversei com ela e aos poucos fui mudando meu pensamento”, lembrou ele.

Alessandra, por outro lado, não tinha medo nenhum em ser doadora. “Quando meu marido me contou do projeto, falei que queria participar. Por mais que dentro do possível o Enzo lidasse bem com o fato de fazer hemodiálise, era um tratamento cansativo e que o limitava. Ao saber que eu poderia melhorar a qualidade de vida dele de alguma forma, não pensei duas vezes”, disse.

Transplante

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Segundo Machado, não é qualquer casal, ou dupla, que está habilitado para fazer o transplante pareado. Para isso, alguns critérios têm que ser atendidos.

“Pacientes que têm doadores vivos compatíveis do ponto de vista do sistema ABO (que classifica os grupos sanguíneos em tipos A, B, AB e O) e a compatibilidade tecidual podem fazer o transplante com seus doadores. O ineditismo desse projeto de cruzar doador/receptor com incompatibilidade sanguínea ABO ou imunológica tecidual, buscando a compatibilidade com outras duplas, resulta na conclusão de dois doadores e dois receptores renais compatíveis”, explicou.

O médico conta que os pacientes com incompatibilidade tecidual têm dificuldade de passar pelo transplante por conta da frequência elevada e do nível de anticorpos no seu sangue.

“Estes compreendem 30% dos pacientes em lista de espera e somente 10% dos transplantes realizados. Tais pacientes ficam em média cinco anos em fila de espera, permanecem em diálise e ficam inscritos na lista de espera para transplante com doador falecido mesmo tendo um doador disposto a doar. Assim, a DRP é uma ótima alternativa”, pontuou.

Mesmo que esse transplante seja uma esperança para os pacientes renais crônicos, a doação pareada ainda não é regulamentada no Brasil. Felizmente, existe um projeto de lei em andamento que pretende mudar isso.

Sucesso

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Depois de terem sido selecionados para o transplante, os casais foram avaliados clinicamente, fizeram vários exames e então receberam a confirmação de que estavam aptos para a cirurgia.

Dois dias antes da cirurgia, os casais se conheceram pessoalmente na porta do ambulatório de transplantes do HC. O transplante foi feito no dia 10 de março. Foram quatro cirurgias simultâneas com duração de três horas e participação de 25 profissionais de saúde.

“Os pacientes apresentaram diurese imediata, houve a recuperação da função renal, eles não tiveram qualquer rejeição aos órgãos e ambos receberam alta em menos de uma semana”, explicou o coordenador do projeto.

Fonte: UOL 

Imagens: UOL, G1

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