Arqueólogos identificaram um raro sarcófago romano de terracota com o rosto de Sileno, uma figura da mitologia greco-romana associada ao deus Dionísio. Os pesquisadores encontraram os fragmentos em 2023, em uma área agrícola próxima à antiga cidade de Attouda, na atual província de Denizli, no oeste da Turquia. A decoração pode ter simbolizado proteção contra forças sobrenaturais, segundo uma das interpretações do estudo.
Crédito da imagem: Bilge Yılmaz Kolancı / Cedrus
A arqueóloga Bilge Yılmaz Kolancı, professora associada da Universidade de Pamukkale, na Turquia, analisou a peça. Em 2026, ela publicou os resultados na revista científica Cedrus: The Journal of Mediterranean Civilizations Studies. Segundo a pesquisa, o rosto encontrado no sarcófago não tem paralelo conhecido em outros exemplares cilíndricos de terracota da Anatólia.
Os arqueólogos localizaram os fragmentos durante levantamentos realizados em 2023, na área de Musalla, ao sul da antiga Attouda. O sarcófago não estava em seu local original de sepultamento. Pelo contrário, atividades agrícolas, incluindo o nivelamento do terreno, danificaram a estrutura e espalharam seus restos.
A equipe identificou dois fragmentos do corpo do sarcófago e quatro partes da tampa. Em seguida, os pesquisadores examinaram as peças para reconstruir a forma original do objeto e estudar seus detalhes decorativos.
Apesar dos danos, uma parte importante da tampa permaneceu preservada. Nela, os arqueólogos encontraram um rosto masculino barbado, esculpido em alto-relevo. A peça mede apenas 4,8 centímetros de altura, 4,3 centímetros de largura e 2,5 centímetros de profundidade.
Além disso, o rosto apresenta olhos grandes e arredondados, nariz largo, boca com as extremidades levantadas e barba marcada por pequenas incisões. Essas características levaram a pesquisadora a relacionar a figura a Sileno, personagem da mitologia greco-romana associado a Dionísio.
Na tradição mitológica grega, Sileno era uma figura idosa ligada a Dionísio, deus do vinho, das festas e da fertilidade. Artistas costumavam representá-lo com barba, aparência envelhecida e traços faciais exagerados.
No sarcófago de Attouda, esses detalhes chamaram a atenção da pesquisadora. A análise iconográfica indica que o rosto provavelmente representa Sileno, embora os danos ao contexto arqueológico impeçam uma conclusão definitiva.
A descoberta se destaca porque, segundo o estudo, os pesquisadores não conhecem outro sarcófago cilíndrico de terracota da Anatólia com uma decoração semelhante. Portanto, o objeto oferece novas pistas sobre as tradições funerárias e a produção artística regional durante o período romano.
Uma das interpretações do estudo considera que a imagem de Sileno poderia exercer uma função apotropaica. Esse termo descreve símbolos ou representações que, segundo crenças antigas, afastavam o mal e protegiam pessoas, espaços ou objetos.
Na Antiguidade, algumas comunidades utilizavam rostos grotescos e máscaras com expressões exageradas em contextos funerários. Essas imagens poderiam afastar forças prejudiciais e proteger simbolicamente os mortos.
Nesse contexto, a figura de Sileno talvez funcionasse como um guardião do sepultamento. A posição da decoração também ajuda nessa interpretação, pois os pesquisadores consideram que o rosto pode ter ficado sobre a região da cabeça da pessoa enterrada.
Entretanto, a hipótese não significa que todos os sarcófagos com figuras mitológicas tivessem essa finalidade. No caso de Attouda, a pesquisadora baseia essa possibilidade nas características da imagem e nas tradições funerárias conhecidas.
Os pesquisadores ainda não determinaram a data exata de fabricação do sarcófago. Como as atividades agrícolas retiraram a peça de seu contexto original, a equipe não encontrou objetos associados ao sepultamento que permitissem estabelecer uma cronologia mais precisa.
Por isso, Bilge Yılmaz Kolancı comparou as características do objeto com outros exemplares e examinou a representação de Sileno. Com base nessas evidências, a pesquisadora propõe que a peça tenha sido produzida entre os séculos 1 e 2 depois de Cristo, durante o Império Romano.
A análise também identificou argila avermelhada com mica e cal na composição do sarcófago. Além disso, as dimensões dos fragmentos permitiram estimar que o corpo cilíndrico original media entre 55 e 60 centímetros de diâmetro.
As semelhanças com outros sarcófagos da região também sugerem uma possível fabricação local. Afinal, objetos grandes de terracota apresentam fragilidade e dificuldades de transporte, o que torna plausível a produção em oficinas próximas aos locais de sepultamento.
A antiga Attouda ocupava uma posição estratégica entre as regiões históricas da Cária, Frígia e Lídia. A cidade ficava em uma colina cercada por encostas íngremes em três lados. Além disso, as evidências arqueológicas indicam que a ocupação humana no local começou pelo menos entre os séculos 7 e 6 antes de Cristo.
Durante o período romano, Attouda manteve importância regional. Inscrições, esculturas, estruturas arquitetônicas e objetos de terracota ajudam os pesquisadores a reconstruir a história da cidade.
Os levantamentos arqueológicos também ampliaram o conhecimento sobre as necrópoles e os costumes funerários locais. No entanto, escavações ilegais e outras intervenções danificaram parte dos túmulos ao longo do tempo.
Nesse cenário, o sarcófago com o rosto de Sileno representa um achado relevante. Mesmo fragmentado, o objeto reúne características de uma tradição funerária regional e uma decoração sem paralelo conhecido entre os exemplares cilíndricos de terracota da Anatólia.
Por fim, a pesquisa oferece novas pistas sobre a maneira como as comunidades da Anatólia romana representavam a morte e concebiam a proteção dos falecidos. Embora novas evidências ainda possam esclarecer o significado da decoração, o achado amplia o conhecimento sobre as crenças e práticas funerárias de quase dois mil anos atrás.
Fonte: Heritage Daily






