Síndrome de Stendhal: a estranha reação que abala turistas em Florença

Alguns lugares são tão impressionantes que te tiram o ar – literalmente. Existem aqueles pontos ao redor do planeta que, por uma razão ou outra, se torna tão impactantes que apenas estar lá já é o bastante para causar efeitos físicos, de leves até intensos. Assim, ao visitar Florença, você pode sentir fraquezas súbitas, suor e tremedeira por simplesmente estar em uma cidade recheada de arte. Veja o que é a síndrome de Stendhal que afeta turistas na sub-capital da Itália.

Florença é uma cidade italiana com cerca de 377.207 habitantes e 102 km² de área. Mas, o que mais destaca a cidade no cenário mundial é que ela é cenário das maiores obras renascentistas de artistas como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Giotto di Bondone, Sandro Botticelli, Rafael, Donatello, entre outros.

Então, todos os anos, milhares de pessoas vão até a cidade para absorver tamanha opulência e peso histórico das obras e construções ao seu redor. Mas, o que elas não esperam é que, ao entrar em uma das famosas catedrais, é possível desmaiar de emoção, verdadeiramente.

Síndrome de Stendhal

Reprodução/Pinterest

A síndrome de Stendhal é o nome da condição psicossomática causada pela exposição abundante à riqueza artística de Florença, na Itália. Sendo assim, o nome vem do escritor francês Marie-Henri Beyle, mais conhecido pelo seu pseudônimo Stendhal.

Isso porque, em 1817, descreveu como foi sua visita à cidade de Florença: “Fiquei em uma espécie de êxtase com a ideia de estar em Florença… fui acometido de uma forte palpitação do coração… minha força vital se esvaiu de mim e andei com medo constante de cair no chão.”

Esses sintomas afetam turistas até hoje, tanto que a síndrome foi clinicamente descrita como um distúrbio psiquiátrico ainda no ano de 1989. A responsável pela constatação foi Graziella Magherini, psiquiatra no Hopsital Santa Maria Nuova, de Florença.

Dessa forma, essa classificação ocorreu por meio da observação de 106 pacientes, todos eles turistas, que relataram vertigens, palpitações, alucinações e despersonalização quando se encontraram de frente com grandes obras de arte. Especificamente, relataram exemplos como as esculturas de Michelangelo e as pinturas de Botticelli.

Segundo Magherini, em 2019, eles “sofreram ataques de pânico, causados pelo impacto psicológico das obras de arte e da viagem”. Sendo assim, autoridades regionais afirmam que identificam a síndrome de Stendhal várias vezes todos os anos.

“Ela ocorre normalmente de 10 a 20 vezes por ano em certas pessoas que são muito sensíveis [e] talvez tenham esperado a vida inteira para vir à Toscana”, afirma Simonetta Brandolini d’Adda, presidente da fundação Amigos de Florença.

“Essas obras de arte emblemáticas – as obras de Botticelli, o Davi de Michelangelo – são realmente extraordinárias. Algumas pessoas ficam desorientadas; pode ser estonteante. Vi muitas vezes pessoas começarem a chorar”, acrescentou.

Nascimento de Vênus

Síndrome de Stendhal

Reprodução

Especificamente, o Nascimento de Vênus, de Botticelli, aparentemente é um estímulo para a síndrome de Stendhal. “Já tivemos pelo menos um ataque epilético em frente à pintura”, afirma Eike Schmidt, diretor da Galeria Uffizi. “Um senhor também sofreu um ataque cardíaco.”

Carlo Olmastroni, o senhor de 68 anos que desmaiou, relatou sua experiência. “Eu me aproximei do Nascimento de Vênus, de Botticelli, e, enquanto admirava aquela maravilha, minhas lembranças desapareceram.” Assim, o caso aconteceu em dezembro de 2018, sendo que o senhor é da cidade de Bagno a Ripoli, na Toscana.

Apesar da imprensa local romantizar a síndrome de Stendhal, o caso de Carlo foi outro. “O diagnóstico não foi de síndrome de Stendhal, como alguns pensavam de forma mais romântica, mas a obstrução de duas artérias coronarianas. Talvez, ao admirar o Nascimento de Vênus, elas tenham decidido que não haveria nada mais belo para observar e se contraíram permanentemente!”, segundo Olmastroni.

Assim sendo, o senhor se recuperou por completo, em parte porque um desfibrilador havia sido instalado no dia anterior à sua visita, e também pela presença de quatro médicos no local.

No entanto, Cristina di Loreto, psicoterapeuta que vive e trabalha em Florença, defende que não há provas o suficiente para constituir um distúrbio psiquiátrico.

“Quando você está observando uma obra de arte, existem áreas específicas do cérebro que são ativadas — é como se você estivesse vendo um belo homem ou mulher — mas isso não é suficiente para dizer que é uma síndrome. Ela ainda não foi homologada e não está incluída no DSM-5, nosso manual de distúrbios mentais”, segundo ela.

Então, fomentar a ideia de que Florença é uma cidade mágica que causa esses efeitos se torna uma profecia autorrealizada, porque você se torna mais propenso a sentir os sintomas.

Fonte: BBC

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