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Como as autoridades brasileiras lidaram com a gripe espanhola?

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A gripe espanhola é considerada a mãe de todas as pandemias. De acordo com uma reportagem publicada pela BBC, a doença, quando assolou o mundo, tirou mais de 50 milhões de vidas. Aqui no Brasil, a passagem do vírus ocasionou, segundo as autoridades do Rio de Janeiro, 15 mil óbitos. As mortes foram contabilizadas entre os meses de setembro e novembro de 1918.

“A gripe espanhola era muito rápida, matava em poucos dias. Há notícias de famílias inteiras que morriam em casa e só eram descobertas por vizinhos que notaram a falta de movimento”, explica Lilia Schwarcz, historiadora, antropóloga e professora da Universidade de São Paulo e da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

Na época, em meio ao caos de incertezas e mortes e mais mortes, algumas figuras que assumiram posições de poder na administração pública foram odiados pela imprensa. De todos, o que mais ganhou destaque – e sofreu acusações – foi o médico Carlos Seidl.

Reputação

O famoso médico Seidl nasceu em 1867, no Pará. O profissional, conforme expõe a reportagem da BBC, foi, entre 1911 e 1913, presidente da Academia Nacional de Medicina e, atualmente, é o patrono da cadeira número 17 da entidade. “Carlos Seidl era um médico muito famoso, quase um popstar. Ele chegou a ser capa da revista Fon-Fon, uma das mais populares do período”, explica João Malaia, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria.

Por conta de inúmeros feitos ao longo de sua carreira, em 1912, o médico tornou-se diretor-geral de Saúde Pública. “Cargo que hoje equivaleria ao de ministro da Saúde.movimento”, relata Schwarcz. Seidl se manteve no cargo até o segundo semestre de 1918.

“Entre 1918 e 1920, ponto alto da gripe espanhola, o Brasil teve três presidentes: Wenceslau Braz (de 15 de novembro de 1914 a 15 de novembro de 1918), Delfim Moreira (de 15 de novembro de 1918 a 28 de julho de 1919) e Epitácio Pessoa (de 28 de julho de 1919 a 15 de novembro de 1922)”. Nessa época, o Ministério da Saúde ainda não havia sido fundado, portanto, todos os assuntos em relação eram pautados pelo Ministério de Justiça e Negócios Interiores, sob o comando da gestão de Seidl.

Gripe

De acordo com a publicação da BBC, os primeiros relatos sobre a gripe espanhola que chegaram ao Brasil foram encarados com ceticismo e humor no Brasil. A situação só foi vista com seriedade em setembro de 1918, quando militares brasileiros, ao deixar de navio o país para ajudar na guerra, foram acometidos pela gripe ao ancorar em Dakar, no Senegal.

Nesse mesmo mês, o navio, que estava impregnado pelo vírus, também havia aportado em Lisboa, Portugal, e feito paradas nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro. O desembarque de pessoas infectadas facilitou a transmissibilidade do vírus em nosso país, causando uma onda de estragos sem precedentes.

Quando recebeu as primeiras informações sobre o vírus que impregnava a Europa de medo, a primeira atitude do governo brasileiro foi minimizar a gravidade dos fatos. A realidade se apresentou poucos dias depois e nas últimas semanas de setembro de 1918 medidas de prevenção começaram a ser instauradas.

“Quando a pandemia estourou, as autoridades sanitárias recomendaram que as pessoas se mantivessem em casa e não fossem aos locais públicos. Houve decretos para extinguir algumas práticas bastante comuns no período, como o hábito de cuspir no meio da rua”, conta a historiadora Daiane Silveira Rossi, pós-doutoranda pela Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Não obstante, a gravidade da situação tornou-se alarmante, o que acabou exigindo também a construção de hospitais de campanha e ambientes especiais para isolar aqueles que estavam sendo infectados com o vírus. Mesmo com tal mobilização, as políticas restritivas, ao que parece, não foram aceitas nem pela imprensa e nem pela população.

O bode expiatório

Infelizmente, nada conteve a vertiginosa subida no número de óbitos ocasionados pela gripe espanhola. Nesse ínterim, Seidl passou a ser chamado em diversos editoriais de “cretino, relapso e sedicioso”. O médico, além disso, também foi acusado de não dar o suporte adequado à população.

Em um determinado momento, aceitar Seidl no poder de um alto cargo público tornou-se insustentável. Devido a tamanha pressão, o médico decidiu renunciar ao cargo, que passa a ser ocupado por Theóphilo Torres, médico carioca.

Torres, assim que assume o poder, contrata o médico e pesquisador Carlos Chagas para definir ações de combate à gripe espanhola. Chagas, então, investe fortemente nas medidas preventivas e acelera a criação de hospitais de campanha e postos de atendimento à população em diversos bairros do Rio de Janeiro.

Com uma baixa no número de contaminados, a situação voltou a ficar mais estável. “Carlos Chagas vai entrar no período em que a doença já está no descenso e acaba ficando com toda a fama. Fica parecendo que ele milagrosamente deu um fim na pandemia“, observa Schwarcz.

Momento histórico

Para a antropóloga, a contratação de Chagas representa um momento histórico porque nos apresenta novas versões de heróis nacionais, como, por exemplo, Oswaldo Cruz, considerado, segundo a BBC, como o pai da saúde pública brasileira.

Rodrigues Alves, presidente entre 1902 e 1906, é outro, principalmente por conta de sua administração, que, no início do século 20, ganhou notoriedade por investir em medidas de saneamento e vacinação – todas implementadas por Oswaldo Cruz. A execução dessas medidas, caso não se lembre, nos foi apresentada como a famosa “Revolta da Vacina”.

Alves foi tão querido que, em 1918, decide participar novamente da corrida presidencial. Sem surpresa, ganha, mais uma vez, as eleições. O político morreu no dia 16 de janeiro de 1919. O jurista paraibano Epitácio Pessoa, assume o lugar de Alves em 28 de julho de 1919, mas se mantém apenas até novembro de 1922.

Na administração de Pessoa, a situação da gripe espanhola, segundo a reportagem da BBC, estava relativamente bem controlada no Rio de Janeiro. O Brasil, por um período, vive uma queda na onda de casos e mortes. Além de um relaxamento nas medidas preventivas, as autoridades permitiram também a realização do carnaval.

Liberdade, semelhanças e coincidências

“O desenvolvimento das pandemias de 1918 e 2020 é semelhante. As duas chegaram ao país por meio dos ricos, que viajaram ao exterior, voltaram de navio ou avião e tinham condições de buscar algum tratamento. Mas quem morreu aos montes foi a população mais pobre, que vivia nos morros e nas periferias”, aponta Schwarcz.

Outro ponto similar entre a pandemia com a qual convivemos hoje e a gripe espanhola envolve a procura por tratamentos tidos como milagrosos – e que também não possuem aval científico. “No Rio Grande do Sul, o estoque de carne de frango chegou a acabar, porque as pessoas acreditavam que canja e caldo de galinha podiam curar a doença”, conta.

O sal de quinino foi outro elemento utilizado comumente pela população. A substância era prescrita em tratamentos tanto quanto a malária como dores nas articulações. Em algumas farmácias, era vendido como “santo rmédio”, mesmo com a falta de evidências em relação a sua eficácia contra a infecção. O sal de quinino sai de cena em 1930 e é substituído pela cloroquina.

Independente do quão árduo foi, independente de todos os pontos similares entre ambas as pandemias, o Brasil superou a gripe espanhola – o mundo também. Não há de ser diferente agora.

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