História

Escolas residenciais e a tenebrosa história por trás da Foto do Ano

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Todos sabemos que as fotos não têm som. Mesmo assim, em algumas imagens, podemos ouvir uma espécie de silêncio gritante. É este o caso da imagem produzida pelo fotógrafo canadense Amber Bracken, na qual ele retrata as homenagens às vítimas de uma escola residencial do Canadá.

O registro foi reconhecido como a “Foto do Ano” no World Press Photo (WPP), uma espécie de Oscar do fotojornalismo. Durante o clique, o fotógrafo estava a serviço do The New York Times, ocasião na qual ele captou com precisão o simbolismo dos vestidos vermelhos pendurados nas cruzes. Afinal, aquela cena expressa um dos episódios de maior vergonha da história canadense.

Fonte: Amber Bracken

Escolas residenciais 

Em síntese, as escolas residenciais eram instituições que recolhiam crianças indígenas para “integrá-las” à cultura branca. Assim, entre 1847 e 1996, cerca de 130 espaços destes se instalaram ao longo do Canadá.

Vale lembrar que os pais de indígenas se viam obrigados a colocarem seus filhos nessas escolas, as quais possuíam apoio do Vaticano. Por isso, este episódio é visto como um genocídio dos povos nativos, visto que havia um empenho estatal para fazer as novas gerações esquecerem de suas raízes.

Portanto, nestes internatos, as crianças não podiam se comunicar nas línguas de suas etnias. Afinal, os dirigentes desses ambientes diziam a elas que seus costumes nativos carregavam pecados. Nesse sentido, irmãos e primos, dentro destes espaços, tinham os contatos entre si boicotados. A intenção era sempre enfraquecer as trocas culturais indígenas.

Bill Seward é ex-estudante de uma dessas instituições. Ele deu declarações reveladoras ao documentário Retornando ao Círculo de Cura, com direção de Peter Campbell e Christine Welsh. Ele conta que dormiu longas noites sem jantar. “Muitas vezes fui obrigado a ficar ajoelhado num canto, rezando – e, se não o fizesse, era submetido a ainda mais punições”, acrescenta o senhor que esteve na escola na década de 1930.

Além disso, os alunos eram vítimas constantes de violências físicas e sexuais. A princípio, cada criança ganhava um número de identificação, e quando os padres gritavam seus códigos, era sinal de que abusos estavam por vir.

Fonte: Reuters

James Charlie chegou com o irmão a uma dessas escola em meados do século 20. De acordo com ele, enquanto brincava, “logo se ouvia um apito, um irmão (religioso) aparecia e gritava um número, aquele que queria”, descreve a vítima, no documentário. Em seguida, os padres passavam dias inteiros a sós com as crianças, momento em que os abusos aconteciam.

Caso Kamloops

Além de assassinar a cultura indígena, as escolas residenciais também retiraram as vidas de milhares de alunos. Das 150 mil crianças que o Estado removeu de seus lares, cerca de 6 mil morreram.

Sendo assim, as causas das mortes eram várias, mas todas elas circulavam em torno do descaso dos “educadores” com as vidas do indígenas. Nesse sentido, a foto de Amber Bracken retrata um dos episódios explícitos de genocídio que essas instituições praticaram.

Os vestidos nas cruzes representam as 215 crianças que morreram na Kamloops Indian Residential School, na província canadense da Colúmbia Britânica. A propósito, a escola fechou em 1978, porém, somente em 2021, radares de penetração no solo acharam os corpos das vítimas, que tinham até 3 anos de idade.

Fonte: National Centre for Truth and Reconciliation

Logo, os vestidos ao longo da estrada servem para manter a memórias dessas e de outras milhares de vítimas de um dos episódios de maior vergonha da história do Canadá. Inclusive, em 2019, o primeiro-ministro do país, Justin Trudeau reconheceu a iniciativa estatal da época como um genocídio.

Harvey McLeod foi aluno da Kamloops e até hoje sofre para lidar com os traumas. Para a CNN, ele desabafa: “Eu perdoei, perdoei meus pais, perdoei meus agressores, quebrei a corrente que me prendia naquela escola, não quero mais morar lá, mas ao mesmo tempo me certificar de que as pessoas que não voltaram para casa tiveram o devido reconhecimento e respeito”.

Fonte: BBC, CNN.

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