Qual é o gosto da carne humana? Os canibais falaram

Antes de tudo: por que essa pergunta existe?

O canibalismo, o ato de comer indivíduos da mesma espécie, nos aterroriza há séculos. Mesmo assim, a curiosidade insiste em cutucar: qual seria o gosto da carne humana? Tecnicamente, somos animais de carne vermelha, e os relatos históricos variam bastante na descrição: há quem compare a porco, com textura de boi; outros falam em atum cru ou até peru assado. Estranho? Bastante. Mas dá para entender de onde veio essa colcha de retalhos de depoimentos.

Importante: nos Estados Unidos, o canibalismo em si não é tipificado em âmbito federal, mas qualquer meio de obtê-lo é ilegal (homicídio, profanação de cadáver, compra ilícita de tecidos etc.). Ou seja, não há brecha moral nem legal nessa história, estamos falando aqui de relatos documentados e de crimes, ponto.

“Hannibal, prazer”: a ficção que virou referência

Hannibal Lecter, sem dúvida, é o canibal mais famoso da ficção. (Fonte: Frederick M. Brown/Getty Images)

Na cultura pop, o canibal mais famoso é Hannibal Lecter. O personagem surgiu no livro Dragão Vermelho (1981) e explodiu com O Silêncio dos Inocentes, imortalizado por Anthony Hopkins no cinema. Desde então, muita gente passou a se perguntar se a carne humana teria, no mundo real, aquele “sabor sofisticado” sugerido na ficção. A resposta curta? Nada de glamour. O que existe são relatos crus, muitas vezes contraditórios e, quase sempre, horripilantes.

As experiências confessadas (e um jornalista que foi longe demais)

William Seabrook: “lembra vitela”

Nos anos 1920, o jornalista e viajante William Seabrook publicou Jungle Ways dizendo ter comido carne humana ao visitar uma tribo canibal na África Ocidental. Depois, admitiu que não participou de ritual nenhum: a tal tribo não o deixou sequer chegar perto disso. O “experimento”, segundo confessou, aconteceu em Paris, quando um amigo de necrotério lhe forneceu um pedaço de tecido humano. Ele cozinhou e degustou. O veredito?

  • “Não era como nenhuma outra carne que eu já havia provado”, escreveu. Suave, sem sabor muito marcante, “um pouco mais rígida que uma vitela de primeira”, com leve pegajosidade, “mas agradável”.
  • Ao falar de um assado, reforçou: em cor, textura, cheiro e sabor, a experiência lembrava vitela, a comparação mais próxima entre as carnes “comuns”.

Em resumo: Seabrook ancorou a ideia de que carne humana se aproximaria de vitela (a carne de bezerro), com maciez razoável e sabor pouco pronunciado.

Armin Meiwes: “porco, só que mais amargo”

O alemão Armin Meiwes devorou a carne de um homem que se ofereceu para isso. (Fonte: Michael Wallrath/Pool/Getty Images)

O alemão Armin Meiwes ficou mundialmente conhecido por ter assassinado e devorado um homem que, chocantemente, se ofereceu para isso. Preso e julgado, Meiwes relatou que comeu cerca de 40 quilos da vítima. Sobre o gosto, disse:

  • “A primeira mordida foi estranha, impossível de descrever.”
  • “A carne tem gosto de porco, mas é mais forte”, em algumas entrevistas, descreveu também um amargor.

Ele ainda falou sobre a sensação de “conexão” ao comer a vítima, um aspecto psicológico que não tem nada a ver com gastronomia e tudo a ver com o caráter criminógeno e perturbador do caso.

Issei Sagawa: “atum cru, seios gordurosos”

Em 1981, em Paris, o japonês Issei Sagawa assassinou e canibalizou uma estudante. Livre anos depois por questões legais e de saúde, ele descreveu “cortes preferidos”:

  • As nádegas “derretiam na língua como atum cru”.
  • O pescoço seria a região “mais saborosa”.
  • Os seios, “gordurosos”.

Notou a comparação com atum cru? Ela aparece em outros depoimentos e ajuda a montar o mosaico de sabores relatados: porco, vitela, atum. Ou seja, não existe consenso.

O mercado do horror: quando venderam gente como “porco”

Casos antigos de serial killers europeus relatam que alguns criminosos comercializavam carne humana como se fosse carne suína, nomes como Karl Denke, Fritz Haarmann e Karl Grossmann aparecem em reportagens e arquivos policiais. Grossmann, em especial, ficou associado à venda de cachorros-quentes com carne clandestina. O objetivo, claro, era enganar fregueses e ocultar crimes, não “divulgar sabor”.

Mulheres canibais (raras, mas citadas): o caso Omaima Nelson

Em 1991, a modelo egípcia Omaima Nelson matou o marido, que ela descreveu como abusivo, e admitiu ter consumido partes do corpo. Relatou que as costelas eram “doces” e que usou molho barbecue. A mistura de adjetivo sensorial (“doce”) com condimento deixa claro outro ponto: tempero e modo de preparo distorcem qualquer comparação direta entre carnes.

Então… qual é o gosto da carne humana?

Juntando as peças dos depoimentos:

  • Porco, mais forte (e às vezes amargo): recorrente em confissões como a de Meiwes.
  • Vitela (bezerro), em cor, cheiro, textura: associação clássica do relato de Seabrook.
  • Atum cru (derretendo na boca): comparação de Sagawa para regiões mais gordas/macias (nádegas).
  • Peru assado: aparece em menções pontuais; mostra o quanto o preparo e o corte mudam a experiência sensorial.

Mas atenção: esses relatos são antiéticos e provenientes de crimes, não de estudos controlados (e nem poderiam ser). Eles dizem mais sobre contextos extremos do que sobre “gastronomia”. Em outras palavras: tentar cravar um “sabor oficial” é impossível e, francamente, sem sentido.

Fonte: Mega Curioso

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