A doença de Creutzfeldt-Jakob continua sem cura e nenhum tratamento disponível consegue interromper sua evolução. Ainda assim, pesquisas recentes abriram novas possibilidades para combater essa enfermidade rara e neurodegenerativa, que provoca uma rápida deterioração do cérebro.
Lito Sousa, influenciador do canal ‘Aviões e Músicas’, foi diagnosticado com doença degenerativa rara — Foto: @lito/Instagram/Reprodução
Atualmente, os médicos concentram os cuidados no controle dos sintomas, na prevenção de complicações e no conforto do paciente e da família. Paralelamente, pesquisadores testam medicamentos experimentais que procuram interferir diretamente no mecanismo responsável pela formação dos príons.
A doença de Creutzfeldt-Jakob, conhecida pela sigla DCJ, surge quando proteínas chamadas príons assumem uma estrutura anormal. Essas proteínas conseguem induzir outras proteínas normais a mudar de formato.
O processo cria uma espécie de reação em cadeia. Conforme os príons anormais se acumulam, eles prejudicam o funcionamento do cérebro e provocam sintomas neurológicos que podem avançar rapidamente.
A DCJ afeta aproximadamente uma a duas pessoas a cada milhão de habitantes por ano. A maioria dos casos surge de forma esporádica, sem uma causa identificável. Além disso, o contato cotidiano não transmite a doença.
Uma das principais estratégias atuais busca reduzir a quantidade da proteína normal que os príons utilizam para produzir novas proteínas anormais.
O medicamento experimental ION717 utiliza uma tecnologia chamada oligonucleotídeo antisenso. A substância interfere na produção da proteína priônica e tenta diminuir a quantidade disponível para a formação de novos príons.
Pesquisadores também conduzem o estudo PRiSM, desenvolvido nos Estados Unidos. Nesse caso, a terapia utiliza uma pequena molécula de RNA, chamada siRNA, administrada por meio de uma punção lombar.
O objetivo consiste em diminuir a produção da proteína priônica. Como o estudo ainda está em uma fase inicial, os pesquisadores concentram a análise na segurança e na tolerabilidade do tratamento. Portanto, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que a terapia consegue interromper a doença.
Outra linha de investigação envolve o efavirenz, medicamento utilizado no tratamento contra o HIV. Estudos experimentais encontraram resultados que levaram pesquisadores a investigar um possível efeito contra doenças causadas por príons.
Pesquisadores também testaram medicamentos como quinacrina, doxiciclina e flupirtina. Até agora, porém, nenhum deles demonstrou de forma consistente a capacidade de alterar a evolução da doença de Creutzfeldt-Jakob.
Pesquisadores brasileiros também procuram moléculas capazes de interferir no comportamento dos príons.
Um estudo realizado por equipes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Federal de Goiás analisou compostos presentes na Moringa oleifera, conhecida popularmente como moringa ou acácia-branca.
Entre as 18 substâncias identificadas no extrato, os ácidos clorogênico e neoclorogênico apresentaram capacidade de se ligar à proteína priônica.
Durante os experimentos em laboratório, essas moléculas reduziram a formação de agregados e também desorganizaram estruturas que já haviam se formado.
O resultado chama atenção dos pesquisadores, mas não significa que a moringa funcione como tratamento contra a doença de Creutzfeldt-Jakob.
A equipe ainda precisa realizar novos testes em células e animais. Além disso, os pesquisadores precisam descobrir se essas substâncias conseguem alcançar o cérebro em quantidade suficiente e quais efeitos podem provocar no organismo.
Enquanto os pesquisadores procuram novos tratamentos, os avanços no diagnóstico também ajudam no combate à doença.
Um dos exames utilizados atualmente é o RT-QuIC. O teste analisa o líquido cefalorraquidiano e pode identificar alterações relacionadas à proteína priônica, ajudando os médicos a confirmar a suspeita da doença ainda durante a vida do paciente.
Esse recurso tem importância porque várias manifestações da DCJ também aparecem em outras doenças neurológicas. Algumas dessas condições possuem tratamentos específicos.
A doença pode provocar perda rápida de memória, alterações de comportamento, dificuldade para caminhar e manter o equilíbrio, movimentos involuntários e alterações visuais.
Por isso, os médicos precisam avaliar cuidadosamente cada caso para identificar a causa dos sintomas e definir os cuidados mais adequados.
Apesar dos avanços científicos, a doença de Creutzfeldt-Jakob continua sem cura e nenhum tratamento comprovado consegue interromper sua evolução.
Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 90% dos pacientes diagnosticados evoluem para óbito em até um ano.
Por enquanto, os médicos concentram o tratamento no controle dos sintomas e das complicações. A equipe também pode oferecer suporte físico, nutricional, psicológico e social ao paciente e aos familiares.
Os novos estudos representam uma esperança para o futuro, mas ainda não oferecem uma solução disponível para quem recebe o diagnóstico.
A principal expectativa dos pesquisadores está no desenvolvimento de terapias capazes de interferir diretamente na formação e no acúmulo dos príons. Os resultados dos estudos clínicos vão mostrar se essas estratégias realmente conseguem retardar ou modificar a evolução da doença.
Fonte: UOL






