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Mulher trans que foi cantora gospel diz que abriu mão da carreira no auge

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Essa mulher trans, antes de viver sua verdade, estava no auge da sua carreira musical no segmento gospel. Seus vídeos tinham milhões de visualizações em vários países. Ela tinha fã-clubes e já tinha até sido indicada ao Grammy Latino. Ou seja, Jotta A era uma verdadeira sensação nos eventos evangélicos.

Sua vida era uma verdadeira história de superação de uma criança que  nasceu no município de Guajará Mirim, em Rondônia, e que enfrentou dificuldades se mudando para São Paulo em busca do seu sonho.

Mesmo assim, ela não estava completamente feliz. No meio da pandemia da COVID-19, com os shows sendo adiados e sem nenhuma perspectiva de retomada, Jotta passou por uma fase que ela define como de “muita sorte”. Foi nesse momento que ela olhou para si mesma e decidiu que não queria viver mais como antes.

“Precisei ficar a sós comigo mesma para provar a roupa que eu queria ou poder colocar o vestido que eu queria”, disse ela.

Também nessa mesma época, ela decidiu que precisava se conhecer melhor. Para isso acontecer, o primeiro passo era abandonar a música gospel.

“Tive que abrir mão de uma estabilidade, de uma carreira construída, para viver a minha verdade. Digo abrir mão porque viver a verdade ainda é um tabu muito grande. Para que eu pudesse buscar o autoconhecimento, tive, de certa forma, que abrir mão de toda a comodidade que uma carreira brilhante me trouxe”, contou.


Depois de dois anos, a mulher começou o seu processo de mudança de documentos para o gênero feminino. O nome que, no passado, era apenas artístico, hoje é parte dos seus registros oficiais, no caso, Jotta.

Carreira

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O passado e o presente da mulher estão conectados, principalmente, por conta do que ela considera que a mantém viva, a música. A carreira musical da cantora começou na igreja evangélica.

“A igreja é um local de muita musicalidade, eu ouvia muita música e isso despertou um desejo muito grande. Meus pais viram que talvez eu tivesse talento e me incentivaram muito”, relembrou.

Desde muito nova, o talento de Jotta chamava atenção. Então, aos seis anos, ela gravou seu primeiro CD. Quando a família se mudou para São Paulo, ela se inscreveu no programa de calouros do apresentador Raul Gil. Na época, ela estava na adolescência e ganhou a disputa.

“Depois disso, recebi inúmeros convites para gravar CD em inglês ou em espanhol e nunca mais parei”, disse Jotta.

Em sua carreira gospel, a mulher teve várias músicas de sucesso, tanto em português como em espanhol. “Vivi muitos momentos que posso dizer que foram especiais na minha carreira, momentos de muito status em que cheguei a lugares altos que eu nunca imaginei. Eu sou uma pessoa nortista, de uma família que não tinha uma condição financeira boa e conquistei várias coisas incríveis”, ponderou.

Justamente em seu auge, e com possibilidade de crescer ainda mais, que Jotta decidiu mudar sua vida.

“Eu percebi que precisava fazer por mim mesma, não fazer pela minha carreira, não fazer por todos aqueles prêmios que eu poderia conquistar pela minha música, mas por mim mesma. Então foi o momento em que entendi que, de fato, precisava me autoconhecer”, contou.

Mudança

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No momento em que o mundo todo estava enfrentando a luta contra a COVID-19, Jotta usou esse tempo para viver buscando respostas a respeito do seu próprio futuro.

“A pandemia foi um momento difícil para muitas pessoas e perdi pessoas importantes na minha vida. Mas também foi um momento em que eu tinha uma agenda lotada, cancelaram tudo e eu não sabia o que fazer. Eu precisava me libertar. Foi quando falei: ‘puxa, talvez esse seja também um momento de solitude no qual posso decidir de vez o que fazer'”, disse ela.

Atualmente, com 24 anos, a artista conta que sempre se enxergou como uma mulher trans. “Com certeza desde criança sempre me entendi como uma mulher, mas nunca tive oportunidade de exteriorizar tudo isso”, disse.

Um desses motivos é que ela não conhecia a realidade de mulheres trans e só teve o seu primeiro contato com uma aos 16 anos anos. “Até então, tudo o que eu tinha à vista era a experiência cisgênero (pessoas que se reconhecem com o gênero que nasceram), então pensava que nunca seria uma mulher porque nunca teria um útero ou uma vagina. Esse meu primeiro contato com uma mulher trans me fez ver que eu não preciso ser uma mulher cisgênero para ser uma mulher na sociedade. Então, ali me senti representada”, contou.

“Eu nunca pude expressar o meu gênero. Para mim, sempre foi uma coisa que tive que privar das pessoas porque tinha medo do que poderia acontecer. Infelizmente, o preconceito deixa a gente acanhada para desbravar esse mundo de autoconhecimento”, continuou ela.

Transição

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No momento em que ela começou a sua transição de gênero, ela decidiu falar a respeito do assunto aos poucos por medo da exposição. O medo principal da mulher era como o seu público religioso e conservador iria ver sua verdadeira identidade de gênero.

“Primeiro eu falei para as pessoas que eu era uma pessoa não-binária (que não se identifica no gênero masculino ou feminino). Foi uma maneira que considero que pode ser mais leve. Foi o primeiro passo. E só agora, há alguns dias, estou podendo falar para as pessoas quem eu sou de verdade”, contou.

A revelação de que Jotta é na verdade uma mulher trans foi feita no dia 11 de abril através de uma publicação no seu Instagram. No post, ela apareceu em uma rua de São Paulo com um visual bem diferente do seu de costume. Ela estava com tranças na altura do ombro, roupas femininas, um salto alto e uma bolsa no ombro.

“Essa sou eu indo ao cartório para fazer a primeira solicitação de retificação do meu nome de registro”, escreveu no começo do post.

“Recomeçar não é fácil, mas estou feliz por estar vivendo todo esse processo. Feliz em ter tantas pessoas que me apoiam e acreditam em mim nessa nova etapa”, concluiu ela em seu post.

“Depois do momento de solitude tão especial, que começou dois anos atrás, agora estou podendo externar tudo isso e está sendo incrível”, finalizou Jotta.

Fonte: G1

Imagens: G1

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