As queimadas na Amazônia prejudicam a capacidade das florestas de absorver dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo aquecimento global. Um estudo publicado na revista científica Communications Earth & Environment revelou que a poluição gerada pelos incêndios também danifica as árvores que sobrevivem ao fogo, reduzindo sua capacidade de retirar carbono da atmosfera.
Incêndio na floresta amazônica na cidade de Bonfim, em Roraima – Bruno Kelly/Bruno Kelly/Reuters
De acordo com a pesquisa, esse efeito indireto aumenta as perdas de carbono em aproximadamente 24% em relação às emissões diretas dos incêndios. A estimativa pode variar entre 18% e 35%, dependendo das condições analisadas. O resultado mostra que os impactos das queimadas vão além da vegetação destruída pelas chamas.
Além de liberar dióxido de carbono durante a combustão da vegetação, os incêndios florestais contribuem para a formação de ozônio próximo à superfície terrestre. Em altas concentrações, esse poluente pode prejudicar o funcionamento das folhas e comprometer processos essenciais para a sobrevivência das plantas.
Segundo os pesquisadores, o ozônio entra nas folhas e provoca danos celulares que dificultam a fixação do carbono. Como consequência, a fotossíntese perde eficiência, o envelhecimento das folhas é acelerado e a queda precoce da vegetação pode aumentar.
Esse processo reduz a capacidade das árvores sobreviventes de absorver CO2 justamente quando a floresta precisa se recuperar dos danos provocados pelo fogo.
A descoberta também evidencia um efeito que pode passar despercebido em análises convencionais das emissões. Afinal, contabilizar apenas o carbono liberado diretamente pelas chamas não revela toda a dimensão dos prejuízos causados pelos incêndios à capacidade de armazenamento de carbono da floresta.
Para avaliar os efeitos da poluição sobre a vegetação, os pesquisadores analisaram dados referentes ao período de 1997 a 2024. O trabalho investigou a relação entre a atividade dos incêndios, as secas e os danos provocados pelo ozônio na Amazônia.
Os resultados indicaram que os impactos são especialmente preocupantes nas áreas conhecidas como Arco do Desmatamento, região onde a expansão das atividades agropecuárias e a perda de vegetação nativa pressionam a floresta.
Nessas áreas, os incêndios e a degradação ambiental podem comprometer tanto a vegetação atingida diretamente pelas chamas quanto as árvores que permanecem em pé.
Além disso, períodos de seca intensa favorecem condições que tornam as florestas mais vulneráveis ao fogo. Dessa maneira, a combinação entre incêndios, poluição atmosférica e estresse climático amplia os desafios para a recuperação da vegetação.
O estudo destaca que os incêndios florestais afetam o equilíbrio climático de duas maneiras. A primeira ocorre pela liberação direta de carbono durante a queima da vegetação. A segunda envolve a redução da capacidade das árvores remanescentes de continuar absorvendo esse gás.
De acordo com os pesquisadores, esse efeito indireto representa uma parcela significativa das perdas de carbono associadas ao fogo e precisa ser considerado nas avaliações do balanço de carbono da Amazônia.
A floresta desempenha um papel importante na regulação do clima porque retira CO2 da atmosfera durante a fotossíntese e armazena parte desse carbono na vegetação. Quando incêndios e outros fatores de degradação prejudicam esse processo, a contribuição da floresta para a redução das concentrações de gases de efeito estufa também diminui.
Por isso, compreender os efeitos da poluição sobre as árvores sobreviventes é fundamental para calcular com mais precisão os impactos das queimadas.
Os pesquisadores apontam que a redução do desmatamento e da degradação florestal pode diminuir os danos associados ao ozônio formado a partir das emissões dos incêndios. Isso porque menos queimadas significam uma redução das emissões que contribuem para a formação desse poluente.
A preservação da vegetação nativa também ajuda a manter os processos naturais que sustentam o funcionamento da floresta. Por outro lado, a continuidade da destruição aumenta a vulnerabilidade das áreas remanescentes e dificulta a recuperação dos ecossistemas.
Além disso, combater o uso inadequado do fogo e fortalecer medidas de prevenção de incêndios são ações importantes para limitar as perdas de carbono.
Os resultados mostram que os prejuízos provocados pelos incêndios florestais não terminam quando as chamas se apagam. A poluição liberada durante as queimadas pode continuar afetando a vegetação e diminuir a capacidade das árvores sobreviventes de absorver carbono.
Esse efeito amplia a dimensão dos impactos ambientais e reforça a importância de proteger as florestas contra incêndios e desmatamento.
Diante desse cenário, reduzir a destruição da vegetação nativa é uma medida essencial para preservar a capacidade da Amazônia de armazenar carbono e contribuir para a regulação do clima. A pesquisa também destaca a necessidade de incluir os efeitos indiretos da poluição nos cálculos sobre as emissões e as perdas de carbono provocadas pelo fogo.
Fonte: Correio Braziliense






