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Vestígios milenares encontrados em AlUla podem mudar o entendimento da pré-história

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Em AlUla, na região no noroeste da Arábia Saudita, foram encontradas ruínas de culto misterioso milenar que podem mudar o entendimento da pré-história.

Primeiramente, é preciso destacar que o país só abriu para pesquisas internacionais há alguns anos (e para turistas em 2019), por isso, muitos de seus sítios arqueológicos antigos estão sendo estudados pela primeira vez.

Mesmo que os historiadores estejam familiarizados com as ruínas das cidades de cerca de 2.000 anos de Hegra e Dadan, localizadas na Rota do Incenso, eles não tinham muito conhecimento sobre a civilização que veio antes.

Vestígios milenares em AlUla

Foto: Tuul & Bruno Morandi/ Getty Images / BBC

Os historiadores descobriram que, espalhados pela vasta e remota paisagem de AlUla, estão vestígios arqueológicos milenares que podem mudar a compreensão da pré-história.

O trabalho de Jane McMahon e de seus colegas de equipe de arqueólogos da Universidade da Austrália Ocidental, que trabalham em AlUla desde 2018, está abordando os primeiros monumentos de pedra da história mundial, anteriores a Stonehenge e à primeira pirâmide de Gizé.


Um círculo de rochas no local são os restos de uma casa ocupada no período Neolítico (de 6000 a 4500 a.C.). Além disso, a área já foi repleta de prósperos assentamentos.

Antes, a teoria com maior força era que essa região possuía pouca atividade humana até a Idade do Bronze após 4000 a.C.

No entanto, o trabalho de McMahon e de seus colegas revelou uma história muito diferente: que a Arábia Saudita neolítica era uma paisagem dinâmica. O local era intensamente povoado.

“O clima e a paisagem inerte da Arábia Saudita significam que a maior parte da arqueologia está muito bem preservada na superfície de 5 mil a 8 mil anos atrás. Então exatamente do jeito que você vê, é como era todo esse tempo atrás”, diz McMahon.

A profissional explica que entender mais sobre a vida destes primeiros povos também poderia esclarecer como os assentamentos de Hegra e Dedan se desenvolveram, além de informar as mudanças culturais e tecnológicas na região, como a agricultura de irrigação, metalurgia e textos escritos — nos milênios seguintes.

“As mudanças culturais que aconteceram após o Neolítico são enormes, mas não sabemos muito como estas mudanças ocorreram”, afirma ela. 

Os “portões”

Espalhadas por uma área de impressionantes 300 mil quilômetros quadrados e construídas em um modelo relativamente consistente, estão 1,6 mil estruturas monumentais retangulares de pedra que também datam do período Neolítico.

Primeiramente chamadas de “portões”, por causa da aparência vista de cima, as estruturas foram posteriormente renomeadas como “mustatil”, expressão árabe que significa “retângulo”.

“Faz voar sua imaginação pensar que temos estruturas tão grandes quanto cinco a seis campos de futebol, feitas de milhares de toneladas de pedra, que não apenas cobrem uma região geográfica enorme, como também têm 7.000 anos”, afirma Hugh Thomas, codiretor dos Projetos de Arqueologia Aérea do Reino da Arábia Saudita (AAKSAU, na sigla em inglês).

Os mustatils são impressionantes e a única forma de ter noção do seu tamanho é sobrevoando o local. O lugar possui grandes pedras dispostas em linhas retas na areia, com aproximadamente o comprimento de quatro campos de futebol e largura de dois.

A equipe de Thomas também notou que todos os mustatils foram construídos de maneira semelhante, empilhando pedras para formar paredes baixas que são preenchidas com cascalhos. Eles também incluem uma cabeça, uma base e paredes compridas que os conectam.

Alguns até possuem entradas e vários pátios interiores estreitos.

Para que serviam os mustatils?

Os monumentos pré-históricos de AlUla foram registrados pela primeira vez na década de 1960 por uma equipe local que fazia um levantamento do solo. No entanto, naquela época não se sabia do que se tratava.

Pesquisas de sensoriamento remoto feitas pelo professor David Kennedy (também da Universidade da Austrália Ocidental), em 2017, aumentaram o interesse pelo local. Com isso, teorias iniciais sugeriam que os mustatils eram usados ​​como marcadores territoriais para pastagens ancestrais.

Porém, conforme foram encontradas mais estruturas, todas datando o mesmo período, Thomas, McMahon e suas equipes descobriram evidências que sugerem a prática de um culto.

Eles encontraram um grande número de crânios e chifres de gado, cabra e gazela selvagem em pequenas câmaras nas cabeças dos mustatils. No entanto, não encontraram nenhum indicativo de que eram mantidos para uso doméstico.

Como não acharam partes do corpo de nenhum outro animal, isso levou a equipe a deduzir que eram sacrifícios. Já os animais eram sacrificados em outro lugar. Essa é uma evidência de uma sociedade de culto altamente organizada, muito mais antiga do que se pensava anteriormente, antecedendo o Islã na região em 6 mil anos.

O passado e o futuro de Alula

Munirah Almushawh, codiretor de um projeto arqueológico em Khaybar (outra região de AlUla), aponta que a sociedade dessa época compartilhava um sistema de crenças único e viajava grandes distâncias para compartilhar o conhecimento que permitiu construir as estruturas.

Alguns dos mustatils pesam até 12 mil toneladas, mais do que a Torre Eiffel. Por isso, estima-se que sua construção teria exigido conhecimento, habilidade e organização por longos períodos de tempo.

Mesmo que seja emocionante, o conhecimento sobre os mustatils ainda é incipiente, com apenas cinco dos 1,6 mil escavados até agora. A certeza é que AlUla continuará a revelar seus mistérios à medida que a região é estudada.

McMahon e Thomas estão animados com o futuro e o passado de AlUla.

“Nosso trabalho revelou até agora apenas o que sempre existiu: a complexidade do período Neolítico nesta região, que anteriormente havia sido considerada inabitável ou meramente sem importância na época.”

Fonte: G1

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