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Conheça o caminho de Peabiru, a rota indígena que conecta o Atlântico ao Pacífico

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A cidade de Peabiru possui 13 mil habitantes, e está a 500 km de Curitiba (Paraná). No local, estão os restos do Caminho de Peabiru, uma rede de trilhas com 4 mil quilômetros de extensão, que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico. Ela foi construída há milênios por povos indígenas sul-americanos.

O Caminho de Peabiru era uma rota espiritual para o povo guarani que buscava um paraíso mitológico. O local também se tornou um caminho em direção aos tesouros do continente quando chegaram os colonizadores europeus em busca de acessos ao interior da América do Sul.

Caminho original para Peabiru

Gessiane Pereira/ Caminhos De Peabiru

A maior parte do caminho original desapareceu, consumido pela natureza ou transformado em rodovias ao longo dos séculos. No entanto, nos últimos anos essa rota começou a ser revelada para o público, devido ao desenvolvimento de novos passeios turísticos.

Essa transcontinental cativa a imaginação das pessoas com bastante facilidade. O primeiro europeu conhecido por caminhar no local foi o navegador português Aleixo Garcia. Ele naufragou no litoral de Santa Catarina no ano de 1516, após o fracasso de uma missão espanhola que pretendia navegar pelo Rio da Prata. Garcia e outros navegadores foram acolhidos pelos indígenas guaranis.

Oito anos depois, após ouvir as histórias sobre um caminho que levava até um império nas montanhas, rico em ouro e prata, Garcia viajou com 2 mil guerreiros guaranis até os Andes, aproximadamente 3 mil quilômetros de distância.


As trilhas que vinham do Brasil conectavam-se à rede de estradas incas e pré-incas através dos Andes. Atualmente, o local recebe muitos visitantes, mas o Caminho de Peabiru deixou poucos vestígios.

Teorias divergentes

A falta de evidências físicas gerou várias teorias divergentes sobre quem o criou e quando. Além disso, surgiram especulações sobre sua possível criação pelos vikings ou pelos sumérios — ou mesmo pelo apóstolo Tomé.

Algumas teorias apontam que data de cerca de 400 ou 500 d.C., enquanto outras sugerem que ela remonta até 10 mil anos atrás, aos caçadores-coletores paleoindígenas.

“O Caminho de Peabiru foi a estrada transcontinental mais importante da América pré-colombiana, que ligava os povos, os territórios e os oceanos”, afirmou a arqueóloga Cláudia Inês Parellada, à BBC.

As teorias também divergem sobre o local exato por onde a rota passava. “É difícil ter certeza sobre o caminho completo porque ele mudou ao longo do tempo”, explica Parellada.

Plano turístico de Peabiru

Flávio Benedito Conceição/ Getty Images

Na cidade de Peabiru, construída na década de 1940, o governo local e grupos de voluntários criaram e demarcaram recentemente trilhas de caminhada inspiradas pelo Caminho de Peabiru.

Elas fazem parte do plano turístico do Paraná lançado em 2022, de mapear um provável trecho do Caminho com até 1.550 quilômetros para ciclismo e caminhada, atravessando o Estado desde o litoral e passando por 86 municípios, até a fronteira com o Paraguai.

Uma das rotas inclui sete cachoeiras ao longo do curso de um dos rios da região, que inclui os locais em que foram encontradas flechas, argamassa, gravações em pedras e outras joias arqueológicas na última década. Agora, esses objetos estão em exibição no recém-inaugurado Museu Municipal “Caminhos de Peabiru”.

A floresta é um local de escavações arqueológicas desde os anos 1970, em busca de restos do Caminho de Peabiru. Na região, havia uma densa população indígena, com cerca de 2 milhões de pessoas, principalmente guaranis, no século 16.

Caminho principal para Peabiru

Gessiane Pereira/ Caminhos De Peabiru

Um dos poucos consensos entre os pesquisadores é de que o caminho principal da rede conectava o litoral leste e oeste da América do Sul. Dos seus pontos de partida no litoral brasileiro (atualmente São Paulo, Paraná e Santa Catarina), as trilhas se reuniam no Paraná, prosseguindo através do território que hoje forma o Paraguai até a região de Potosí, na Bolívia, que era rica em prata.

Ao chegar ao lago Titicaca (fronteira entre a Bolívia e o Peru), o caminho seguia até Cusco, a capital do império inca, em seguida descia até o litoral peruano e o norte do Chile.

Na série literária História do Caminho de Peabiru, publicada em 2021, a pesquisadora brasileira Rosana Bond, concluiu que a rede de caminhos provavelmente foi criada e usada por diversos grupos indígenas ao longo dos séculos. No entanto, o seu principal objetivo era conectar o Atlântico ao Pacífico.

Paraíso mitológico

Foto: Denis Ferreira Netto/Sec. Des. Sustentável E Turis

O Caminho de Peabiru é uma rota física e espiritual na cultura guarani. Ela leva ao paraíso mitológico chamado de Yvy MarãEy, que fica além da água (o Oceano Atlântico), onde nasce o Sol.

A “a terra sem mal” (em tradução livre) é mencionada na tradição oral dos guaranis, nos seus rituais, música, dança, simbologia e em nomes de lugares. As lendas guaranis ainda apontam que a rede de caminhos é um reflexo da Via Láctea na Terra.

Também estima-se que o nome da trilha venha da palavra guarani peabeyú, que significa “caminho de grama pisada”, entre outras traduções.

No entanto, para os colonizadores europeus, o caminho espiritual dos guaranis para o paraíso era uma via rápida até as riquezas dos incas nas expedições pelo Novo Mundo. Isso provocou a morte em massa das populações indígenas da América do Sul pela guerra, pela fome e, principalmente, pelas doenças.

Além disso, as lendas sobre o Eldorado e a Serra da Prata trouxeram frotas de navios espanhóis e portugueses através do Atlântico. Alguns povos indígenas ajudaram esses estrangeiros a penetrar no interior do continente, através do Caminho de Peabiru, segundo Parellada.

Nos séculos seguintes, sucessivas ondas de exploradores, catequizadores jesuítas, bandeirantes, comerciantes e colonizadores também fizeram uso do Caminho de Peabiru para acessar o interior do continente, isso acabou ampliando e alterando o caminho.

“Os primeiros registros escritos sobre a trilha datam dos séculos 16 e 17”, aponta Parellada. 

Para Parellada, “um passeio pelo Caminho de Peabiru, aliado a atividades educativas, poderá ser uma ponte para a compreensão total do passado colonial da América do Sul, sua biodiversidade e o conhecimento dos povos indígenas”.

Fonte: BBC

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