
Um galpão no bairro do Canindé, na região central de São Paulo, ficou conhecido como um “cemitério de estátuas”. No local está guardado um resquício das patas do cavalo do Duque de Caxias, um escoteiro inteiro, uma águia, duas lagostas gigantes e alguns escritores.
Esses monumentos, ou apenas fragmentos, foram retirados das ruas da cidade em diferentes momentos da história, desde a década de 1930.
As obras foram retiradas pelo próprio Estado por motivos mundanos, como dar espaço a um viaduto.
A artista plástica e professora da USP Giselle Beiguelman, que estuda desde 2014 como e por que monumentos são retirados dos seus lugares originais, afirma que essa ausência causa diversos questionamentos.
“Esses fragmentos de monumentos (no depósito) são úteis porque nos fazem pensar se precisamos de monumentos, quais monumentos não temos, quais temos e como lidamos com essas estéticas da memória”, disse ela à BBC.
“Escrevemos por muito tempo a história do país suprimindo atores fundamentais, como indígenas e escravizados, e isso é algo que a historiografia vem problematizando nas últimas décadas”, lembra ela.

Foto: Prefeitura de São Paulo
Em sua pesquisa, Beiguelman concluiu que diversos monumentos de São Paulo mudam diversas vezes de endereço, algumas vezes por motivos políticos. Alguns vão para o cemitério de estátuas sem que exista uma discussão pública sobre o que deve ser feito com eles. A artista ainda explica que às vezes não se sabe por que a obra foi feita e nem por que ela mudou de lugar.
Beiguelman retirou esses pedaços de monumentos do galpão e os expôs pela cidade. Além disso, ela mapeou os monumentos que mudavam de lugar e lançou o livro Memória da Amnésia: Políticas do Esquecimento (Edições Sesc, 2019).
“Não quero dizer que esses monumentos devem ser recolocados na cidade, até porque muitas vezes foram criados de forma aleatória. A função é tensionar a relação da memória e da preservação. Esse é o desafio do tipo de obra que eu faço. Não é ‘vamos colocar tudo no lugar, ah, essa cidade de vândalos’. É tentar entender o que eles nos permitem pensar sobre os monumentos que, sim, estão à nossa volta”, afirma a artista.
A Secretaria de Cultura afirma que o objetivo é que as peças que estão no depósito sejam devolvidas às ruas, depois de uma análise de cada caso e da aprovação da Comissão de Gestão de Obras e Monumentos Artísticos em Espaços Públicos.
Veja abaixo o que se sabe da história de alguns monumentos.

Foto: Prefeitura de São Paulo
As estátuas de lagostas da Fonte Monumental da Praça Júlio Mesquita, no centro da cidade, são, na opinião de Beiguelman, o único monumento que não se encaixa no perfil de “retrato de poderosos”.
As lagostas originais foram roubadas diversas vezes, até que o governo resolveu tirá-las e trocá-las por versões de resina, que permanecem até hoje.
A fonte mostra uma cena de um pescador cercado de sereias, aparentemente resistindo à sedução delas. No entorno da fonte ficam as lagostas. A peça foi idealizada por Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto (Campinas, 1874 — Rio de Janeiro, 1941), mas acabou sendo feita por um homem.
A fonte fazia parte de um projeto de urbanização de São Paulo intitulado “Centro Cívico” e foi encomendada em 1913. A execução do monumento só aconteceu anos depois de sua encomenda e só foi inaugurada em 1927.

Foto: Giselle Beiguelman
No final dos anos 1930, um militar fez uma campanha para conseguir recursos para a construção de um monumento que lembrasse a figura de Duque de Caxias, patrono do Exército e líder militar.
O escultor Victor Brecheret (Comuna di Farnese, Itália, 1894 – São Paulo, SP, 1955) projetou o duque a uma altura de um edifício de dez andares, em cima de um cavalo, empunhando uma espada.
A estátua foi inaugurada no dia 25 de agosto de 1960, Dia do Soldado, na Praça Princesa Isabel. No entanto, desde 1991, o cavalo só tem três patas.
De acordo com o site da Prefeitura, no dia 15 de agosto daquele ano, militares de baixa patente, insatisfeitos com seus salários, arremessaram uma bomba contra o monumento, que se esfacelou em alguns pedaços.

Foto: Ana Otoni/Projeto Memória Da Amnésia
A escultura Heróis da Aviação, de Mino Roque, é uma homenagem a três pioneiros da aviação no Brasil, Bartolomeu de Gusmão, Santos-Dumont e Edu Chaves. A obra consistia em uma coluna com uma águia no topo e, na base, tinha medalhões com os rostos dos três.
O monumento foi projetado para ficar no Hipódromo da Mooca e permaneceu no local até 1951, quando o Hipódromo foi transferido para o Morumbi e o monumento, para a Praça Coronel Fernando Prestes.
Quando a praça foi reformada, em 2006, a escultura foi levada para o cemitério de estátuas.
O depósito também guarda dois bustos do chamado Jardim dos Escritores, um conjunto de esculturas de membros da Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche, local em que fica a instituição.
Os bustos são do advogado e político paulista Aureliano Leite, feito por Luiz Morrone, e de Vicente de Carvalho, poeta, jornalista e jurista, de Ettore Ximenes.
A secretaria de Cultura não informou por que essas estátuas estão no depósito.
Fonte: BBC




![Existem dois tipos de pessoas no mundo, descubra qual você é [ Quiz ]](https://www.fatosdesconhecidos.com.br/wp-content/uploads/2015/12/top-6-350x202.jpg)

