Ciência e Tecnologia

Tratamentos filtram sangue e prometem frear o envelhecimento

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O que as pessoas estão dispostas a fazer para frear o envelhecimento? Parece que a mais nova moda no Vale do Silício é passar por tratamentos que filtram o sangue, garantindo alguns anos a mais de velhice saudável. Sally Adee, da New Scientist, contou sua experiência ao pesquisar sobre esses tratamentos de sangue.

Assim, ela vai até o bistrô francês, que estava escondido entre um cabeleireiro e uma loja de ferramentas. Isso porque o homem que ela iria entrevistar sobre o assunto pediu para que esse fosse o ponto de encontro, porque ele não aceitou fazer a entrevista enquanto recebia a transfusão de sangue.

Ela vai até a mesa onde ele está, bebendo uma taça de vinho e vestindo blazer e camiseta, um jeito de se vestir típico dos empresários do setor de tecnologia. Por mais que sua aparência seja jovem, há algo de artificial, aponta Sally. Ainda assim, quando ela descobre que ele tem 65 anos, o choque se torna presente.

Para proteger a privacidade do homem, ela o apelidou como JR. Ele é basicamente uma pequena celebridade na cidade, sendo que é a quinta vez no ano que ele foi de Atlanta para fazer o tratamento. Vale destacar que Monterey, uma cidadezinha de apenas 28 mil habitantes na costa da Califórnia, não costuma receber pessoas como ele.

“Muita gente imagina a costa da Califórnia como uma faixa homogênea, cheia de praias e gente rica. Mas aqui é diferente. Não há sol, encoberto por uma neblina permanente. O mar é bravo e cinzento, os prédios baixos e acanhados. Então é meio estranho que Monterey seja o epicentro de um fenômeno que está agitando o Vale do Silício: as injeções de sangue jovem” conta Sally.

Sangue novo

JR é apenas uma das cem pessoas que pagaram US$ 8 mil cada uma para ser participante desse teste controverso. Assim, eles receberão plasma sanguíneo de doadores entre 16 e 25 anos de idade parar tentar retardar o envelhecimento. Alguns dos participantes até saem de lugares bem distantes, como Rússia e Austrália.

“Depois que uma série de estudos recentes, obteve resultados impressionantes em ratos de laboratório, a ideia de encher as suas veias com sangue jovem deixou de ser um mito vampiresco e se tornou a mais nova ferramenta do Vale do Silício em sua missão para superar a morte. Startups, universidades, empresas farmacêuticas e bilionários da tecnologia estão correndo para tentar aproveitar a onda”, explicou Sally Adee.

De acordo com a jornalista, isso despertou o medo entre a população de que o sangue venha a se tornar uma mercadoria. Além disso, cria-se a imagem de um futuro distópico em que os velhos literalmente sugam a juventude dos jovens. Porém, pode ser que não seja bem assim.

Isso porque, daqui a alguns anos, novas pesquisas poderão permitir que usemos o sangue de formas mais seguras e eficazes com o objetivo de frear a decadência do envelhecimento.

Rejuvenecimento

Bolsa de sangue

Reprodução/Bramach

Tudo isso graças a uma técnica cirúrgica sombria: a parabiose. Ela consiste em costurar dois animais de idades diferentes, geralmente ratos, e esperar uma semana para que vasos capilares se formem e unifiquem a corrente sanguínea das cobaias. Esse novo encanamento parecia beneficiar os camundongos mais velhos, que se tornavam física e cognitivamente mais próximos dos parceiros jovens. Na década de 1970, estudos mostraram que, depois de serem costurados, os ratinhos idosos viviam mais”, disse Adee.

Então, no início dos anos 2000, pesquisadores da Universidade de Standford decidiram revisar a técnica, com o objetivo de desenvolver tratamentos contra doenças. Eles danificaram intencionalmente os fígados e os músculos de camundongos velhos, e conectaram cada um deles a um animal perfeito (que podia ser jovem ou idoso). Os ratos que foram costurados com parceiros jovens se curaram; os demais, não. Testes posteriores, que avaliaram a saúde do coração e do cérebro, obtiveram resultados similares.”

Assim, o principal candidato que proporciona o efeito rejuvenecedor é o plasma, um líquido amarelo que costuma ser separado em banco de sangue. Ele é rico em proteínas e outros compostos, que podem ser a chave para explicar por que os jovens são jovens e os idosos são idosos, conta Sally.

O poder do sangue

“A ciência ainda não decifrou todos os compostos do plasma, mas já sabe que as quantidades e as proporções dele vão mudando conforme a pessoa envelhece. O sangue velho tem maior quantidade de compostos inflamatórios, que danificam os tecidos do corpo. E a inflamação crônica está ligada a câncer, doenças cardíacas e até depressão. O sangue jovem, por outro lado, tem maior concentração de substâncias que estimulam a reconstrução do organismo.”

Dessa forma, as pessoas que se submeteram aos testes, como JR, defendem que se sentem diferentes, mais dispostas e mais resistentes. Mas existem aqueles que também não sentiram os supostos efeitos, como foi o caso da namorada de JR. Vale destacar que, no caso de pessoas jovens que recebem o tratamento, há inúmeros riscos, como danos sérios ao fígado, podendo levar à morte, sobrecarga do sistema circulatório e reações alérgicas. Então, será que vale a pena?

Fonte: Superinteressante

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