Entretenimento

Desertor gay foge da Coreia do Norte e descobre amor aos 62 anos

0

De acordo com uma recente reportagem publiada pela BBC, o único desertor norte-coreano declarado abertamente homossexual chamou a atenção dos veículos de comunicaçao internacionais, após publicar uma autobiografia, cheia de detalhes, expondo sua tragetória. Os principais pontos da história foram resumidos à BBC, 25 anos depois que Jang Yeong-jin – nome fictício – fugiu da Coreia do Norte.

A coragem do desertor homossexual

Em sua autobiografia, Jang Yeong-jin revela nunca ter sentido atração por mulheres. O desejo pelo sexo oposto sempre existiu, mas nunca foi um problema, tanto que o norte-coreano chegou a se casar. “Eu achei que meu desejo nunca seria um problema, mas na noite de núpcias tudo mudou. Eu não conseguia sequer encostar na minha esposa”, revela à BBC.

Mesmo com o incômodo sentimento se fazendo presente, Jang Yeong-jin consumou o casamento. No entanto, com o passar do tempo, o sexo tornou-se algo raro. Quatro anos depois do casamento, o norte-coreano acabou revelando sua preferência sexual aos irmãos, os quais haviam passado a questioná-lo firmemente por não ter engravidado a esposa durante tal período.

Perdidos, os irmãos o encaminharam a um médico. “Fui a muitos hospitais na Coreia do Norte porque eu achava que tinha um problema, afinal, o conceito de homossexualidade não existe na Coreia do Norte”.

“No país, adultos do mesmo sexo costumam ser vistos de mãos dadas na rua independentemende de sua sexualidade, mesmo a Coreia do Norte é uma sociedade totalitária”.

Em uma de suas visitas ao centro clínico, Jang Yeong-jin, curiosamente, percebeu que não era o único cidadão a viver tal realidade, pois foi exatamente aí que conheceu outros ‘pacientes’ com casos similares. “Descobri que muitos tiveram uma experiência semelhante: homens que não sentiam nada por uma mulher”.

‘Pacientes’ vs. realidade

Um dos homens que se encontrava na mesma situação havia conhecido Jang Yeong-jin no Exército. O sujeito, cujo nome não foi revelado, o visitou em algumas ocasiões quando ambos receberam alta – os exames médicos solicitados mostraram que não havia nada de errado com nenhum dos dois. Em um dos singelos encontros, o rapaz falou abertamente sobre sua noite de núpcias. “Foi um desastre. Eu não conseguia nem segurar a mão da esposa”, disse o jovem. “Acho que era alguém como eu”, disse JangYeong-jin à BBC.

De acordo com Park Jeong-Won, professor de direito da Universidade Kookmin em Seul, “na Coreia do Sul, diz que não tem conhecimento de nenhuma lei explícita na Coreia do Norte contra relacionamentos gays”. Em contrapartida, conforme pontuou o profissional, existem leis contra casos extraconjugais e violação dos costumes sociais e muitas são usadas para processar atos homossexuais.

Curiosamente, a professora de Estudos Norte-coreanos na Ewha Women’s University, Kim Seok-hyang, após entrevistar outros desertores, descobriu que nenhum havia ouvido falar do conceito de homossexualidade. “Quando perguntei sobre a homossexualidade, eles tiveram dificuldade em entender. Então, tive que explicar a cada um”.

A fuga

Em todos os anos que estiveram casados, a esposa de Jang sempre se sentiu infeliz. “Eu estava pensando: eu deveria deixar essa pessoa ir embora, deveríamos encontrar uma maneira de sermos felizes”, explicita Jang Yeong-jin à BBC.

O desertor chegou a pensar em pedir o divorcio, mas a decisão, caso fosse tomada, seria em vão. “O processo de separação na Coreia do Norte, além de não ser fácil, precisa de um aval de um tribunal, o qual, geralmente, prioriza sempre a unidade familiar”, diz o professor de direito Park Jeong-Won. “Eles só autorizam a separação se o casamento for visto como uma ameaça à ideologia do país”.

Foi exatamente neste momento que Jang Yeong-jin decide deixar a Coreia do Norte. A fuga, além de anular o casamento, permitiria que sua esposa se casasse novamente. O desertor chegou à Coreia do Sul em abril de 1997, após cruzar uma zona desmilitarizada, regada a minas com explosivos.

Como todos os desertores norte-coreanos, Jang Yeong-jin, assim que chegou na Coreia do Sul, foi entrevistado pelo Serviço de Inteligência da Coréia do Sul (NIS). O processo durou cerca de cinco meses e encerrou-se somente porque admitiu que havia deixado o país de origem por não se sentir mais atraído por sua esposa.

Jang Yeong-jin recebeu uma autorização oficial para se manter no país, mas, novamente, teve que retornar ao médico.

Descoberta, decepção e amor

Após 13 meses, o norte-coreano se deparou com o artigo de uma revista sobre gays saindo do armário. O texto, finalmente, o convenceu de que também era homossexual. “Quando vi isso, soube imediatamente que eu era esse tipo de pessoa. É por isso que não gosto de mulheres”.

A revelação o transformou e o ajudou a frequentar bares gays em Seul. Em uma determinada noite, o desertor conheceu um comissário de bordo, o qual, infelizmente, o cativou, para, em seguida, extorquir dinheiro.

Aos poucos, Jang Yeong-jin conseguiu reconstruir sua vida, mas demorou muito até que conseguisse restabelecer a confiança e, assim, se arriscar a sair de novo com alguém. Já confiante, o desertor decidiu apostar nos sites de relacionamento, até que conheceu Min-su – nome fictício -, dono de um restaurante nos Estados Unidos.

Quatro meses depois, o norte-coreano viajou para os Estados Unidos. Quando Jang chegou ao saguão de desembarque, sentiu-se decepcionado pelo fato de avistar Min-su usando bermuda e boné. “Vendo como ele se vestia, achei que era um homem mal-educado e rude”, disse Jang Yeong-jin à BBC.

Por conta do confinamento imposto pela pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, ambos tiveram a oportunidade de se conhecer melhor. “Quanto mais eu o conhecia, mais podia ver seu bom caráter. Embora ele seja oito anos mais novo, é o tipo de pessoa que se preocupa primeiro com os outros”.

Depois de dois meses, Min-su propôs o norte-coreano em casamento. O casal pretende se casar esse ano. “Sempre me sentia assustado, triste e solitário quando morava sozinho. Sou muito introvertido e sensível, ele é uma pessoa otimista. Fazemos bem um ao outro”, afirma.

Após anos sofrendo, a felicidade se fez presente e o conto de fadas tornou-se realidade. Para aqueles que desejam conhecer a história do desertor a fundo, basta conferir sua autobiografia A Mark of Red Honor (“Uma Marca de Honra Vermelha”, em tradução livre, sem versão no Brasil). A obra foi publicada em 2015.

Entenda tudo o que aconteceu com o menino Henry Borel

Matéria anterior

Assim eram alguns castelos asiáticos antes de virarem ruínas

Próxima matéria

Comentários

Comentários não são permitidos